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A única coisa que importa ao capital é a sua valorização , sem consideração para os sacrifícios que implica. Hoje, como ontem, a crise obriga a burguesia a livrar o capital dos seus excedentes. Como um doutor faria uma flebotomia a um paciente, a burguesia precisa de purgar o capital para deixá-lo recomeçar o seu ciclo de valorização.

Aniquilar as mercadorias excedentes é uma necessidade imperiosa, e em primeiro lugar a força de trabalho supranumerária, as massas de desempregados, de sem-abrigo, de esfomeados, de indigentes cada dia mais volumosas.

Que fazer com essas mercadorias indesejáveis para o capital?

Pode-se deixar os proletários morrer de fome e de doença, massacrá -los em guerras locais ou étnicas, ou então, como veremos, encerrá-los em campos de trabalho forçado, isto é campos de concentração.

E campos de concentração, sempre houve deles e ainda há. Cada vez que a necessidade de livrar-se de mercadoria força de trabalho começa a fazer-se sentir, junta-se os proletários em campos e põe-se os ao trabalho. Trata-se primeiro de os manter sob controle, de impedir que se organizem, contra o desemprego e a miséria crescente. Trata-se depois, como é o caso hoje em Itália com o fluxo maciço de refugiados albaneses, de não deixar milhares de proletários à balda que arriscam-se a comprometer a frágil paz social que ainda reina no país. Trata-se enfim, quando se generaliza a guerra e que a morte torna-se banal, de liquidar puramente e simplesmente essas massas agora inúteis, custosas e perigosas. Foi o que se tem feito mais ou menos por todo o lado em Europa, à apenas 50 anos.

Actualmente, estamos ao nível dos primeiros sintomas. Por todo o lado em Europa, encerram-se os clandestinos, os refugiados, os boat-people. Propõe-se medidas de trabalho forçado para desempregados. Encerram-se maciçamente os proletários no sul da Itália, mais parcimoniosamente em França, mas a violência é sempre a mesma: em Pescara, a marinha italiana afunda um barco de refugiados albaneses, enquanto na Bélgica a polícia assassina Semira Adamu asfixiando-a porque recusava ser expulsa.

Qualquer seja as épocas e os sítios, concentrar os proletários excedentes em campos e aterrorizá- los é o primeiro sintoma de um sociedade que apronta-se a destruir-se para regenerar-se.

Hoje, principalmente no ocidente, a democracia -outro nome para "exploração capitalista"- funda a sua justificação sobre o antifascismo. Trata-se de promover a memória das atrocidades cometidas pelo fascismo para assegurar a amnésia dos crimes cometidos pelo lado antifascista (1). Em resumo, trata-se da banal maneira de proceder de todos os vencedores nas guerras imperialistas. O vencedor só faz a publicidade das barbaridades cometidas pelo vencido.

Eis, contudo, baseado em informações tiradas da edição do "Sunday Times" do 9 de agosto 1998, um novo exemplo de campo de trabalho construído antes da segunda guerra mundial, e do qual os "nazis" poderiam ter-se inspirado.

Entre 1929 e 1939, sob a tutela do gorverno do assaz socialista Ramsay Mac Donald, alguns 25 campos de trabalho serão construídos nos sítios mais recuados da Grã-Bretanha e mais de 200.000 jovens desempregados transitarão por lá (2). Nesses campos, a estadia mínima era três meses, os proletários eram obrigados a trabalhar nove horas por dia, escavando buracos, abatendo arvores e partindo pedras para construir estradas. Vestidos de uniformes semelhantes aos dos prisoneiros, vivam em cabanas de madeira, e do salário miserável que ganhavam eram deduzidas a renda e a comida. Qualquer pessoa recusando-se a esses três meses de escravidão perdia imediatamente e para sempre qualquer direito a indemnidades de desemprego.

A genial ideia do senhor Mac Donald, socialista da vanguarda ao serviço do capital, era de submeter durante três meses todos os proletários desempregados a condições de vida tais que a seguir lhes passaria a vontade de recusar até os mais degradantes trabalhos. Portanto, de criar uma situação tal que qualquer trabalho seria preferível ao destino reservado aos proletários nesses campos.

A fim dos anos 20 e os anos 30 foram anos de crise mundial. Obrigando a força de trabalho excedente?os desempregados- a ficar mobilizados sob o trabalho forçado, os governos procuravam subtrair as cidades à agitação que começava a reinar. A tal segunda guerra mundial e o envio de milhares desses proletários para os cqçpos de bqtqlhq constituirá o remate final dessa grande limpeza. Mas, durante os dez anos que precedem o seu desencadeamento, todos os preparativos instalam-se. Os campos de concentração ingleses forneceram uma mão de obra barata e farão consideravelmente diminuir o nível do desemprego. O proletariado é posto sob controle, alistado nos campos de trabalho antes de o ser no exercito.

Apesar dos relatórios governamentais dessa época terem todos "desaparecido", certos prisioneiros hoje com mais de 80 anos de idade confirmam que se tratava de facto de campos de trabalho forçado, de escravatura e terror.

"A experiência era desumana e degradante. Com o tempo, realizo que o nosso tratamento não era diferente do que os Nazis infligiam", recorda-se W. Eccles que passou três meses no campo de Glenbranter quando tinha 18 anos.

"Só faltavam as cadeias. Os responsáveis eram odiosos. Era escravatura. Metiam-se por cima e berravam para que trabalhássemos mais depressa, mas de qualquer modo sempre trabalhávamos duramente para não morrer de frio. Ninguém queria ir nesses campos, mas eramos forçados", acrescenta C. Ward, ele também internado em 1932 para três meses de trabalho forçado.

Essa política, que tinha o delicado nome de "New Deal" (uma apelação retomada mais tarde nos Estados Unidos sob Roosevelt),foi recentemente adaptada à moda de hoje pelo assaz socialista Tony Blair.

O New Deal de Blair, é um plano que prevê que todos os desempregados de menos de 25 anos perderão as indemnidades de desemprego deles se recusam qualquer proposta que lhes é feita. Quer isto dizer qualquer que sejam o salário e as condições de trabalho , não se trata de recusar ou emitir qualquer reivindicação.

Hoje como ontem, calar-se e aceitar, tal é a regra para não morrer de fome.

Hoje como ontem, as mesmas causas capitalistas produzem os mesmos efeitos

Que seja na Itália, em Israel, ou se calhar dentro de pouco na Grã-Bretanha, a preocupação do Estado é sempre a mesma: constringir pelo terror o proletariado a aguentar sem resistir os ataques sucessivos de este sistema de miséria e de morte.

Se podiam deitar-nos ao mar, há que tempos que já seriamos comida para peixe. Mas não se pode decentemente atirar-nos para o mar, então, encerram-nos em campos de concentração, de trabalho, de refugiados, de deslocados Cortam-nos a comida e tornam-nos dóceis e imbecis para que nos preparemos a marchar, o cravo na espingarda, para a próxima carnificina generalizada.

Mas nós, os proletários, hoje desvalorizados, empobrecidos, massacrados, sacrificados no altar do Valor, não somos impotente s. Por todo lado neste mundo, de maneira esporádica e não centralizada, a nossa classe resiste, revolta-se, deserta, sabota

Somos ricos da experiência histórica da nossa classe. Temos de reapoderar-nos da memoria colectiva das nossas lutas de ontem e centralizar os nossos combates de hoje. Organizemo-nos para acabar com este sistema que se alimenta do nosso suor e sangue!

Nós só somos excedentes para o capital; para o comunismo, "proletários" rima com "revolucionários"!

Destruamos o monstro que nos destrui!

Morte ao capital!

Viva o comunismo!

Notas

1. Cf. os campos de concentração da Frente Popular francesa, os da Espanha republicana ou os campos onde foram encerrados todos ps japoneses da América do Norte.

2. Na mesma época, em Irlanda, os proletários esfomeados eram obrigados a construir estradas que não levavam a sítio nenhum, para impedi-los de pensar na fome que os atormentava. Essas estradas foram chamadas "famine roads" (estacadas da fome).



O trabalho é a negação em acto da actividade, da satisfação e da prazer humano. O trabalho torna o homem estrangeiro a si-próprio, ao que produz, á sua própria actividade e ao género humano. O trabalho nada mais é que a actividade humana subjugada ás necessidades das classes dominantes de apropriar-se o sobreproduto explorando e submetendo as outras classes. O capitalismo, libertando -separando- os explorados dos seus meios de vida e de produção e destruindo as antigas formas de produção impôs o sistema salarial e generalizou o trabalho livre ao planeta todo, reduzindo assim em todo lado o homem ao estado de trabalhador, de torturado ("trabalho" deriva etimológicamente do latim "trepalium" - três paus -, "instrumento de tortura").

No trabalho, o proletário é universalmente privado da posse do seu produto; é extraenisado, alheio a si-próprio, negado na sua essência, na sua vida, na sua fruição e tornado estrangeiro ao produto da sua própria actividade.

Além de despejar seu suor, sangue, e vida numa actividade na qual a insensatez só rivaliza com o embrutecimento ele está separado dos laços imediatos com os outros homens na qualidade de seres humanos e portanto separado da sua vida genérica, da espécie humana.

Só dentro da luta contra o trabalho, contra a actividade que se encontram forçadosde exercer e contra os que os constrangem a fazê-lo, reemergem os proletários em qualidade de seres humanos e tomam assim, na generalização dessa luta e na consecutiva reconsideração da totalidade da sociedade, os primeiros passos em direcção duma sociedade comunista onde a actividade tornara-se enfim humana, para os humanos.

* Teses de orientação programática GCI, Tese 40 *


OL.PO.3.7 Sublinhamos

Ontem, 25 campos de trabalho na Grã-Bretanha