Memória obreira

Unimos sob esta rubrica dois textos distantes pelas épocas e origens geográficas. O primeiro foi escrito pelo revolucionário Flores Magon no México em 1916, o segundo é o produto do GCI em 1983.

O propósito comum aos dois textos , sempre de uma ardente actualidade, contra a defesa dos instrumentos da exploração capitalista, reafirma claramente a continuidade histórica da luta e o carácter invariável dos seus slogans.

Flores Magon foi um revolucionário inspirado e fecundo. Só um assassinato numa prisão do Texas em 1922 consegui apagar a sua energia. Os textos dele evocam toda uma epopeia sangrenta, em eles está contido o resume histórico da luta do proletário contra o burguês rapace, o juiz e o polícia assassino, em América em geral e no México em particular. Conservam hoje e para sempre uma extraordinária validez e proclamam a paixão do comunismo, a necessidade de ruptura revolucionária, de organização classista, de unidade combatente do proletariado.

O obreiro e a maquina

"Maldita máquina!" pragueja o obreiro, suando gotas grossas, cansado e desanimado. "Maldita máquina, que me obrigas a seguir o teu ritmo infernal, como se, eu também, fosse feito de aço e movido por um motor! Odeio-te, instrumento de pesadelo, pois fazendo o trabalho de dez, vinte ou trinta obreiros, tiras-me o pão da boca - e condenas-me, assim como à minha mulher e meus filhos, a passar fome".

A máquina geme sob os golpes do motor, parecendo assim partilhar a fadiga do seu companheiro de sangue e músculos. Todas as peças que a compõem estão em movimento, e nunca param. Algumas deslizam, outras sobressaltam. Estas oscilam, estas rodopiam, ressumando óleo negro, ganindo, trepidando, cansando a vista do escravo de carne e osso que tem de seguir cuidadosamente todos os movimentos delas e resistir ao embrutecimento que provoquem, para não deixar prender um dedo num desses rodados de aço, ou perder uma mão, um braço, ou a vida...

"Máquinas infernais!" Deveriam desaparecer todas, sequazes do diabo! Belo trabalho que fazem! Em um dia, sem outra despesa que alguns baldes de carvão para alimentar o motor, despacham cada uma mais trabalho que um homem em um mês, de tal maneira que um trabalhador, que poderia ter trabalho para trinta dias, vê-lo reduzido a um só por vossa causa... nós a morrer deixa-te indiferente! Sem ti, vinte famílias de proletários teriam o pão quotidiano assegurado."

As mil e umas peças da máquina estão em acção. Giram, deslizam em todos os sentidos, juntam-se e afastam-se, suam gorduras repugnantes, trepidam e ganem até a vertigem... a lúgubre máquina não deixa um instante de descanso. Respira ruidosamente como se fosse viva. Parece espiar qualquer momento de distracção do escravo humano para morder-lhe um dedo, arrancar-lhe um braço -ou a vida...

Através de um respiradouro, penetra uma pálida luz, carceral e sinistra. O próprio sol recusa-se a iluminar este antro de miséria, de angustia e de fadiga, onde se sacrificam laboriosas existências para o benefício de vidas estéreis. Ruídos de passos vêm do exterior - é o rebanho

em marcha! Miasmas espreitam em cada canto da oficina. O obreiro tosse... tosse! A máquina geme... geme!

"Fazem sete horas que estou ao teu lado e ainda tenho que aguentar três. Tenho vertigens, mas devo resistir. A cabeça pesa-me, mas cuidado com o mais mínimo momento de inatenção! Tenho de seguir todos os teus movimentos se não quero que os teus dentes de aço me mordam e que os teus dedos de ferro me encerrem... Mais três longas horas! As minhas orelhas zumbem, uma sede terrível devora-me, tenho febre, a minha cabeça vai rebentar."

Sons felizes chegam de fora: são crianças que passam, travessas. Os risos delas, graciosos e inocentes, afastam um instante a penumbra em volta, genera uma sensação de frescura tal como o canto de um pássaro num momento de abatimento. A emoção apodera-se do obreiro. Os próprios filhos dele também gorjeiam assim! E assim que riem! E sempre a observar o movimento dos mecanismos, começa a pensar. O espírito vai ter com o fruto dos seus amores, que espera por ele em casa. Estremece com a ideia de os miúdos dele terem eles também de vir estoirar-se perante uma máquina na penumbra de uma oficina onde pululam os micróbios.

"Maldita máquina! Odeio-te!"

A máquina começa a trepidar com mais vigor, já não geme mais. De todos os seus tendões de ferro, de todas as suas vértebras de aço, dos dentes duros do seus rodados, das suas centenas de peças infatigáveis, sai um som rouco cheio de raiva que, traduzido em linguagem humana, significa:

- Cala-te miserável! Para de queixar-te, cobarde! Eu não passo de uma máquina, movida por um motor, mas tu, tu tens um cérebro e não te revoltas, pobre diabo! Para de lamentar-te sem fim, imbecil! E a tua cobardia que é causa da tua desgraça, não eu. Apodera-te de mim, arranca-me das garras desse vampiro que te chupa o sangue, e trabalha para ti e os teus, cretino! Em si, as máquinas são uma benção. Poupamos esforço ao homem, mas vocês trabalhadores são tão estúpidos que nos deixem nas mãos dos vossos carrascos, embora vocês próprios nos tenham construído. Como conceber maior estupidez? Cala-te e não pies nem uma palavra mais! Se não tens a coragem de romper as tuas cadeias, então não te queixes! Vamos, são horas de sair. Foge daqui e pensa!

Com as palavras salutares da máquina, associadas ao ar fresco da rua, surge a consciência à mente do obreiro. Sente um mundo desmoronar-se no seu espírito: o mundo dos preconceitos, dos interditos e do respeito da ordem estabelecida, das leis e das tradições, e, de punho levantado, exclama:

- "Sou anarquista! Terra e liberdade!"

12 de fevereiro 1916.

Ah as maravilhosas maquinas

A evolução atual da crise impede que o capital utilize a totalidade do potencial produtivo que tem à sua disposição e que criou precedentemente. Milhares de máquinas quebram ou funcionam com débil rendimento e milhões de trabalhadores reforçam o exército industrial de reserva.

Perante isto, os partidos, sindicatos e organisações de extrema esquerda se escandalizam. A CGT (central sindicalista controlada pelo P"C" oficial) choraminga: "Estão destruindo a França, estão destruindo as nossas vidas". Entretanto o PF expõe, na festa da "A Humanidade", os últimos milagres da tecnologia moderna, de preferência françesa, no sector das máquinas-ferramentas.

Nós, os comunistas, não só vemos neste tipo de propaganda a luta concurêncial entre capitalistas, senão também a defesa do capital.

Todos estes pretendidos marxistas querem fazer-nos crer que as forças produtivas são neutras, ou o que ainda pior é, que têm um carácter proletário ("nossas forças produtivas", "defesa dos nossos instrumentos de trabalho"). Mais ainda, eles se reclamam do velho ideal capitalista, que a realidade mesma desmente cada dia maís, segundo o qual o desenvolvimento das forças produtivas e a valorização máxima podem existir sem o inevitavel polo oposto deles: a desvalorização e a destruição periódica das forças produtivas.

Em realidade, o carácter das forças produtivas está determinado indefectívelmente e unicamente pelas relações de produção. O que quer dizer que no sistema capitalista estas só podem ser forças produtivas do capital. Todas as maquinarias e os métodos de organização do trabalho existentes no capitalismo têm unicamente como objectivo o aumento do nível de exploração, e não é por casualidade que os émulos das máquinas, que servem para explorar o proletariado, são também fieis adoradores do trabalho assalariado. De facto, o processo de produção requer a associação do trabalho morto (as máquinas, as matérias-primas, isto é o fruto do trabalho passado) e do trabalho vivo. Ambos são igualmente necessários: o trabalho morto porque permite a aumentação da exploração da força de trabalho e o trabalho vivo porque é o único criador de valor o portanto de maís-valia e de capital adicional. A defesa do trabalho morto e do trabalho vivo é a defesa da produção capitalista, tanto um como outro são do capital.

A associação do trabalho morto e do trabalho vivo também é a confrontação de classes, pois os instrumentos de trabalho não pertencem ao obreiro, este não possui nem o fruto do seu trabalho, nem o seu próprio trabalho (só possui a sua força de trabalho que é obrigado de vender para subsistir).

"A máquina não atua únicamente como um concurrente cuja força superior tende a transformar o assalariado em algo supérfluo, é como uma força inimiga do obreiro que é empregada pelo capital e isto proclama-lo ele de viva voz. Assim se transforma na arma de guerra mais irresistivel para reprimir as greves, as revoltas periódicas de trabalho contra a autocracia do capital." (K. Marx "O Capital")

NÃO! Senhores defensores do trabalho assalariado, jamais um obreiro desqualificado amará a "sua" cadeia de montagem, jamais um proletário defenderá o seu instrumento de exploração, jamais um revolucionário lutará para as forças produtivas do capital, senão para a sua destruição visto que a afirmação do proletariado em classe para si, é a sua destruição como classe para o capital.

Os apologistas do progresso técnico, que consideram que este beneficiará aos obreiros, e ás condições de trabalho deles, vêm as fábricas em simples visitantes. Não é preciso muita perspicacia para dar-se conta que se a jornada de trabalho diminuio, compensou-se isto ampliamente por um aumento da intensidade e um grande desgaste de nervos e de energia. Todo isto graças ás maravilhosas máquinas que fzem trabalhar depressa e aos novos métodos de organização do trabalho que estas implicam (cadeias, equipes,etc...). E que dizer do aumento em tempo de trajecto até o trabalho, e as migrações, a desocupação, a desqualificação do trabalho, etc, etc... que vida marvilhosa para os nossos obreiros!!!!

Evidentemente, nós não estamos opostos ao desenvolvimento em geral da productividade do trabalho em si, pelo contrário vemos nele o que permitirá diminuir o tempo de trabalho necessário à produção de coisas (o que constitui o seu interesse primordial do ponto de vista comunista). Mas percebemos que o desenvolvimento das forças produtivas neste sistema se transforma em produtividade do capital, quer dizer acrescentada exploração para o proletário.

Os proletários, na luta contra as relações de produção capitalista, se encontram obrigados a opôr-se necessariamente a natureza capitalista das forças produtivas. Este é o caso da greve e da sabotagem (mais ou menos importante ou mais ou menos voluntário) quotidiana das máquinas. Em ambos casos opoêm-se directamente ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, apesar de que, em reação a isto, puxam os capitalistas a desenvolver-las ainda mais para diminuir as consequências das manifestações proletárias. E isto por exemplo que faz dizer a CGT que as lutas obreiras têm por consequência positiva e voluntária o desenvolvimento do maquinismo.

Não se trata de reinvidicar a destruição sistemática das máquinas, que foi o primeiro método de luto obreira e que desmonstrou os seus limites, como um médio adequado de luta revolucionária, senão de compreender a relação que existe entre o proleteariádo e as forças produtivas do capital como uma relação antagónica. A característica essencial de estas últimas são de ser médio de valorização e portanto de exploração: é a ditadura do valor de câmbio sobre o valor de uso.

Se o obreiro desqualificado se encontra escravo da manhã à noite (e muita vezes da noite à manhã) da "sua" máquina não é por amor ou prazer senão para poder sobreviver e tudo isto para o interesse do capital. A prática dos partidos e sindicatos é de fazer de essa escravidão uma ação voluntária dos proletários, sobretudo quando a crise destroi parcialmente essa atadura eliminando o capital excendentário e licenciando a força de trabalho sobrante. Assim o único objetivo que perseguem é de perpetuar a exploração, puxar o proletariádo a atuar como classe para o capital (isto é, negar-se), impedindo que se constitua em classe para si (isto é contra o capital).


OL.PO.3.5 Memória obreira:

O obreiro e a maquina

Ah as maravilhosas maquinas