Acerca da apologia do Trabalho

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Discurso burguês

Quanto mais se descompõe a sociedade, mais se torna quotidiano ouvir elogios aos "trabalhadores", aos "obreiros", aos "produtores de toda a riqueza". E usual nos meios de difusão, nos discursos dos chefes de Estado ou dos sindicalistas, dedicar uma parte das arengas a explicar que o trabalho é saudável e necessário, que trabalhando se constrói a pátria, que sem trabalho não se pode viver, que se tem de reconstituir o país, de aumentar a produtividade, de fornecer mais esforços, etc...

Em geral este tipo de discurso, de outra forma não podia ser, fazem-no os que não trabalham, não só porque as normas sociais proíbem louvar-se a si próprio, ou porque este tipo de discurso da parte dos que trabalham seria algo como criar, confeccionar, idealizar, aperfeiçoar o instrumento de tortura do seu próprio carrasco (o trabalho é uma tortura!), mas também porque os ditos discursos correspondem à necessidade geral do capital de manter os proletários como simples trabalhadores (1), trabalhando, subsistindo para trabalhar, cuspindo mais-valía, e dedicando o resto da vida deles reconstituindo a força de trabalho... para seguir trabalhando.

Além disso, diga-o quem o diga, o discurso de "viva o trabalho" é feito pelo capital, esse monstro social que é o verdadeiro e único sujeito desta sociedade. De facto, o capital não é só valor que se valoriza, relação social de exploração do trabalho assalariado, mas também como valor em processo de transformação submeteu o homem e o fez executante dos seus interesses. O capital se transforma em sujeito supremo da sociedade transformando ao mesmo tempo os seus executantes em simples marionetas (2).

Quando o discurso é feito por um patrão, um Castro, um Clinton, um presidente de directório ou um dirigente sindical, corresponde inteiramente aos seus interesses e o capital fala -para dizê-lo de algum modo- por boca própria. "Trabalhai", "aumentai o vosso ritmo de trabalho", "o trabalho libera" (3), "vivam os heróis do trabalho" não é nem mais nem menos que o interesse real integral da classe social que vive da extorsão da mais-valía e que se encontra organizada em Estado "nacional", "socialista", "popular"... A participação dela na mais-valía está em relação directa com a sua habilidade na gestão do capital, ou, e trata-se da mesma coisa, com a sua capacidade de controle da classe obreira, pois em última instância, os melhores capitalistas são os que melhor asseguram a reprodução do trabalho assalariado, isto querendo dizer os proprietários reais das forças produtivas (burguesia) são os que decidem economicamente da sua utilização, os mais capazes de fazer com que o escravo assalariado se sinta satisfeito da sua escravidão.

O idiota util

Quando o discurso é feito por um de esses escravos assalariados, um trabalhador, se pretenderá que as coisas tem mudado, que a realidade é diferente. Não há nada mais falso que isso. Quando a homenagem ao trabalho é feita por um pobre e miserável trabalhador, este não é nada mais que um pobre e miserável trabalhador que atraiçoa a sua classe, que renuncia aos seus interesses de classe imediatos e históricos e que portanto é incapaz de constituir-se em classe proletária contra o capital. Em, no sentido próprio, um idiota (4) útil que contribui a manter e desenvolver o trabalho, e quaisquer que sejam as suas intenções, contribui objectivamente a desenvolver e intensificar a exploração de todo o proletariado.

O facto de ser um trabalhador a louvar o trabalho é, para o capital, importante, porque esse será mais útil ainda para convencer os outros trabalhadores a resignarem-se ao trabalho e à exploração, mas deste ponto de vista da luta de classes a sua posição está de maneira inequívoca do lado do capital, pois atua objectivamente para aumentar a relação da mais-valía com o capital variável, isto é o nível de mais-valía (e portanto encontra-se contra os interesses imediatos da classe obreira em luta contra o nível de exploração), e simultaneamente (5) atua defendendo globalmente o trabalho alienado, verdadeiro fundamento de esta sociedade de exploração do homem pelo homem (colocando-se contra os interesses históricos do proletariado).

No fundo, o discurso continua a ser um discurso essencialmente burguês, mas não só porque serve o capital, mas além do mais porque é feito pelo próprio capital, mesmo se passa por outra boca. De facto, é o capital que no seu próprio processo de acumulação mundial, de procriação de riqueza e da miséria que o caracterizam, foi desenvolvendo cada vez mais a técnicas para fazer trabalhar os seus escravos, para aumentar o rendimento deles, para que abandonem a vida deles em coisas que em última instância não lhes pertencem, um mundo alheio de coisas que se opõem a eles, os explora e oprime. Novos métodos, novas máquinas, música funcional, ascensão dentro do partido, discursos sindicalistas e políticos, controle do tempo e dos movimentos (taylorismo), promoção dentro do sindicato, "viva o trabalho" clamado inclusive pelos próprios trabalhadores, tudo para explorar mais e melhor.

E o próprio capital que se foi aperfeiçoando, aperfeiçoando também os seus métodos de intensificação da exploração. Para ele não há nada mais útil que a voz do "Trabalhai!" venha do trabalhador mesmo, que não passa de um cavalo, uma besta de carga que só gasta energia bruta, geral, indiferente, abstracta, que se transforma em força opressora, quer dizer em capital, que volta então a requerer o sangue dessa besta de carga para tornar-se mais capital que necessita ainda mais trabalho, mais liquidação de músculo, de braço, de corpo, para tornar-se mais capital, que precisa seguir chupando vida para tornar-se mais capital, que segue intensificando o esforço das suas marionetas para tornar-se mais capital que está impossibilitado de actuar de outra maneira senão seguir matando trabalho para regenerar-se e tornar-se sempre mais capital, que só pode existir transformando-se em mais capital como reprodução ampliada da exploração do trabalho, para a qual é imperioso à sua essência de trabalho morto de destruir trabalho vivo, que par tornar-se mais capital, que é o que o mantém movendo, necessita seguir amontoando cadáveres, montanhas de objectos que não têm outra utilidade que a destruição, o que vem a ser uma dupla forma de amontoar trabalho morto, que não pode fazer outra coisa senão tornar-se mais capital servindo-se do trabalho, acumulando-o como trabalho morto e servindo-se dos idiotas úteis que o adulam gritando "viva o trabalho",... Esse ciclo infernal só pode ter como fim a ditadura contra o capital e a sociedade de escravatura assalariada.

Luta contra o trabalho

Desde tempos imemoriais os explorados, os que foram submetidos pela violência ao trabalho sublevaram-se contra ele e contra todas as condições da sua realização. Ninguém na História trabalhou porque quiz, mas porque foi obrigado, à bruta, com religião, com sangue e com fogo, e/ou foi violentamente separado da propriedade dos meios de subsistência, e dos meios de produção de esses meios de subsistência (o que no fundo vem a ser a mesma coisa). Os escravos, os servos, os indígenas submetidos ou os proletários modernos tem lutado infatigavelmente contra o trabalho. Rebeliões, escapadas, insurreições parciais ou gerais tiveram como causas fundamentais estreitamente ligadas: Com a formação e o desenvolvimento do proletariado e do seu partido histórico, todas essas reivindicações não só mantêm-se, mas desenvolvem-se e afinam-se. O comunismo como movimento do proletariado organizado luta para a redução geral do trabalho à sua expressão mínima tanto em intensidade como em extensão e para a apropriação de todo o produto social por parte do proletariado, mas declara abertamente que essas reivindicações só se podem verdadeiramente e integralmente realizar com a ditadura revolucionária do proletariado, que dirigirá o mundo contra os atuais critérios (ditadura contra o valor de câmbio) e em função das necessidades da humanidade em formação. Contra todos os socialismos burgueses, que pretendem que o trabalho é inerente ao ser humano, e que concebem o socialismo como um simples processo de redistribuição dos bens, tomando-os aos "ricos" para reparti-los entre os "pobres", o comunismo levanta a necessidade de revolucionar não só a distribuição (que em última instancia é uma consequência indissociavelmente ligada à produção), mas também de destruir os próprios fundamentos do modo de produção, revolucionando fundamentalmente o próprio objectivo da produção, para que esta não se decida em função do nível de lucro, mas para tornar melhor a vida, para aliviar o trabalho e para trabalhar menos, o que significa liquidar ao mesmo tempo o dinheiro, o mercantilismo, o trabalho assalariado, criando assim as bases, para que o trabalho deixe de sê-lo, ao reintegrar a actividade produtiva em geral à própria vida do homem.

O desenvolvimento do capitalismo é o desenvolvimento simultâneo e contraditório da burguesia e da contra-revolução por um lado, e do proletariado e do seu programa do outro. A luta contra o trabalho, par a reapropriação do produto social, para a revolução é generada pelo capital e genera ao mesmo tempo o desenvolvimento e a fortificação da reacção.

Qualquer redução do tempo de trabalho é compensada por aumentos na produtividade do trabalho e sua maior intensidade: da manufactura à fábrica e à adaptação de esta à produção em cadeia... até aos "novos métodos de administração do trabalho". Paralelamente e em perfeita correspondência com este processo se vão desenvolvendo os partidos sociais-democratas, os partidos do trabalho, do sindicalismo burguês, do laborismo e mais recentemente o taylorismo, o estalinismo, o nacional-socialismo, o populismo em todas as suas formas e variantes (incluindo claro o peronismo, o castrismo...), quer dizer o conjunto de forças e partidos burgueses que para enquadrar os trabalhadores e pô-los ao seu serviço, tomam como centro ideológico das suas campanhas: a apologia do trabalho.

O desenvolvimento dos partidos do trabalho

Já na metade do século passado a apologia burguesa do trabalho se constituiu em partido. Até essa data os partidos burgueses para os trabalhadores só se chamavam populares, mas a partir de então os partidos burgueses especialmente aptos ao enquadramento dos trabalhadores passaram a chamar-se partidos socialistas, partidos de trabalhadores, partidos sociais-democrátas, partidos obreiros, partidos do trabalho. O partido de Lasalle, a social-democracia alemã e logo a social-democracia internacional, serão o exemplo mais importante de partidos burgueses (pelo programa, pela acção...) com uma composição maioritariamente obreira que têm a apologia do trabalho como ponto fundamental do programa. Pôs-se no centro da teoria a ideologia burguesa do trabalho como fonte de toda a riqueza (6) e reivindicou-se como objectivo do partido e do socialismo a "emancipação do trabalho", instrução sempre acompanhada de outras como a constituição de um Estado popular e livre (7). E de a mesma maneira que o Estado, quando mais se libera, mais oprime a sociedade civil, a emancipação do trabalho não pode ser outra coisa que a fortificação do capital (8).

Logo depois da morte de Marx, a social-democracia sem variar fundamentalmente o seu programa lassaliano de apologia do trabalho, procurará fazer-se marxista. Falsificará, suprimirá na obra de Marx tudo o que há de revolucionário e subversivo e criará o que foi chamado (e continua ser chamado hoje) "marxismo": a mais repugnante apologia do trabalho e do trabalhador.

Pouco a pouco, o que na obra de Marx era considerado como um infortúnio, o ser trabalhador, o que era denunciado como o apogeu da bestialização, da inumanidade, da baixeza, o trabalho, passa a ser para os marxistas do mundo inteiro um mérito, uma honra,... e em nome dos trabalhadores os partidos do trabalho propagaram o trabalho como sinónimo da realização do homem: "o trabalho liberta" o homem. De aqui aos campos de trabalho de Estaline e Hitler só mais faltava um passo.

E esse passo foi realizado com a derrota da revolução internacional de 1917-23. Na própria Rússia a contra-revolução se impôs com o mesmo ritmo que se liquidou o proletariado revolucionário e se consolidou um verdadeiro exército do trabalho. Baseado na teoria social-democrata, defendida por Lenine, segundo a qual o desenvolvimento do capitalismo era um avanço real para a revolução, tudo se foi submetendo à produção capitalista, ao trabalho assalariado, com os ritmos que lhes são próprios. Mas como Estado Nacional Capitalista requeria ser competitivo e para isso era necessário aplicar os métodos mais modernos de exploração. O taylorismo (9) que o Lenine de antes da insurreição denunciava como "a escravidão do homem pela máquina" passa a ser considerado pelo Lenine administrador do capital e do Estado como uma panaceia, pois prisioneiro da ideologia social-democrata considera a aumentarão da intensidade do trabalho, não como o ato mais anticomunista que se possa conceber como é na realidade, senão como um terreno neutro que segundo ele serviria tanto ao socialismo como ao capitalismo (10)!

Essa obra de submissão ao trabalho a um ritmo forçado que na Rússia chegou a uns níveis paranóicos, foi dirigida pelos grandes chefes do bolchevismo, que se mostraram sanguinários na aplicação desses novos ritmos e métodos que o capitalismo necessitava para sua reorganização na Rússia: -Zinoviev se converteu no cão sanguinário de Petrograd organizando a repressão aberta de toda luta contra o trabalho e o Estado- Trotsky foi o encarregado da militarização do trabalho, da criação dos campos de trabalho forçado e foi o chefe dos corpos repressivos em todos os momentos decisivos... enfim, Estaline (que logo se tentará culpar de tudo!) levará esta obra ao seu ponto culminante com os campos de trabalho pelos quais passaram mais de 15.000.000 de trabalhadores, e representando a direcção duma sociedade na qual o capital liquidou até tal extremo toda forma de luta contra a exploração, "trabalhador" e sobretudo "trabalhador a um ritmo exemplar" se transformou, pela primeira vez (e simultaneamente na Alemanha, na Itália, etc), junto à própria figura do Estaline, em ídolo, em deus, na besta sagrada e intocável: foi o funesto reinado dos Stakhanov (11).

Stalinismo, nazismo, castrismo

O capitalismo e a sua opinião pública escondem as contradições decisivas (comunismo-capitalismo) e em lugar delas nos apresentam um conjunto de falsas contradições (fascismo-antifascismo). Temo-lo repetidamente denunciado, embora na guerra capitalista-imperialista, as distintas burguesias assumam diferentes bandeiras e realizam efectivamente a guerra (pois esta não é mais do que a prolongação da competência), o seu programa é essencialmente o mesmo. O fascismo e o antifascismo são o mesmo tipo de sociedade: o capitalismo e mais precisamente o capitalismo recompondo-se da vaga revolucionária mais importante da história do proletariado e impondo a mais larga e impressionante contra-revolução. Da realização da qual ainda hoje sofremos.

Como socialismo nacional, o regime de Estaline, ao contrário do que nos querem fazer crer, tem exactamente o mesmo programa e basicamente efectuou as mesmas realizações que o nacional-socialismo do seu antigo aliado Hitler. E não só porque ambos coincidiram ou não segundo as épocas no plano da política nacional e internacional, mas fundamentalmente porque basearam a gestão da sociedade num projecto nacional de socialismo, porque a ideologia central se encontra no trabalho, num partido do trabalho. Claro que nos discursos há matizes, e se Hitler baseia a sua ascensão na defesa de um socialismo que luta "contra o capital financeiro e usurário internacional (12)", contra o governo do dinheiro, contra a plutocracia e para um verdadeiro socialismo da nação alemã; Estaline preferia dizer que o socialismo dele (num só país) lutava contra os "países capitalistas" e a favor das "democracias populares"; mas nos dois casos concentram o programa económico num gigantesco esforço laboral, na grande indústria, especialmente na infra-estrutura energética e de comunicações e nas construções para o "povo trabalhador". No centro de ambos regimes estão os Serviços do Trabalho e a obrigatoriedade do trabalho apresentado como uma honra: "o serviço obrigatório do trabalho tem de ser uma honra para a juventude e um serviço prestado ao povo. Não deve fornecer mão-de-obra económica à indústria privada nem converter-se numa empresa competidora do Estado. Deve proporcionar um exército de trabalhadores para levar ao cabo obras públicas com fins económicos, culturais e outros da política nacional." (13) Hoje frente a uma situação onde todos os regimes do mundo chamam em nome dos trabalhadores a trabalhar mais, comendo menos, sobretudo naquelas partes do mundo onde na direcção do Estado se encontra um partido de socialismo nacional, um partido do trabalho (14), como por exemplo em Cuba, é muito importante pôr em evidência que no fundo não tem grande coisa de original comparado aos seus precedentes: o estalinismo e o nazismo. Por isso tem de se insistir sobretudo neste último, sem dúvidas muito menos conhecido que os outros. O nazismo não é, no que diz respeito aos partidos do trabalho, um exemplo entre muitos, senão o mais aperfeiçoada extremo, que os sucessores envergonhados dele (pois não podem reconhecer tal facto) não fazem mais que imitar (consciêntemente ou não).

Em realidade, não há nenhuma originalidade nos discursos e nas realizações dum Fidel Castro. Nem sequer quando este pretende que o seu partido representa uma luta dos produtores manuais e intelectuais contra a burguesia, e que com a ascensão dele ao poder os trabalhadores, representados, claro, por esse partido socialista, conquistam a possibilidade de administrar os assuntos do Estado. "A burguesia política está sendo expulsa da cena e em lugar dela vemos avançar os produtores manuais e intelectuais, as forças de trabalho que empreendem a missão histórica delas. Não se trata simplesmente de uma questão de horas de trabalho e de salários - embora essas reivindicações sejam especiais e representem talvez a mais importante das manifestações da vontade socialista - mas o que mais importa é a integração de um corpo social potente e responsável na administração dos assuntos do Estado e talvez mesmo assumirá o papel principal no futuro política da nossa pátria." Este não é um discurso de Fidel Castro senão directamente do célebre nazi Goebbels, que com tanto cinismo como o outro, não tinha medo de afirmar: "Não somos uma instituição de caridade, somos um partido socialista de revolucionários." (15)

No que segue nos referiremos quase exclusivamente aos nazis. Fazer para cada caso o paralelismo explícito com citações e referências a "realizações" de socialistas atuais não é necessário, cada leitor encontrará pelo meio do que segue esse socialistas e castristas cuja inspiração foi já utilizada pelo nazis há cinco décadas.

Toda a propaganda do regime nazi baseava-se sobre os benefícios que segundo este os trabalhadores tinham obtido do dito regime. Antes de tudo se insistia na eliminação completa da desocupação, que se contrapunha à "decadência do capitalismo corrupto". Quando se ocupou a França tinha-se passado da desocupação de mais de seis milhões de pessoas ao recrutamento sistemático de trabalhadores "voluntários" fora da Alemanha para paliar à escassez da força da trabalho. Na realidade essa pretendida "eliminação da desocupação" não foi nem mais nem menos que a obrigação de trabalhar para todos os desocupados, situação geral no mundo que com distinto êxito foi aplicada por todo o capital, desde Estaline a Roosevelt. Foi o reconhecimento generalizado da necessidade de recorrer à política do gasto público (logo teorizada por Keynes), de grandes obras, de militarização exacerbada da economia, até a guerra imperialista. Para o trabalhador alemão, como para qualquer outro a quem se impôs o trabalho capitalista, foi trabalho mal pago, regimentado, militarizado e que o foi levando à guerra e à morte. Mas nessa época as coisas eram apresentadas de outro modo, entrevistavam-se os pobres tipos que iam para o campos de trabalho (16) e esses iam"contentes" escapando à desocupação e decadência para ir "trabalhar"! Os nazis baseavam as campanhas deles nas realizações "concretas", nas "construções para obreiros", na casas e lugares de turismo para trabalhadores, na liquidação do analfabetismo e nas campanhas de educação popular, etc, e que muitos socialistas latino-americanos tenham isto mesmo como programa de socialismo, não faz mais que mostrar as coisas tal como são! Assim o programa do Partido Nacional Socialista estabelecia: "queremos dar uma pátria ao trabalhador alemão. Queremos construir vivendas saudáveis, com luz, ar e sol para a juventude vigorosa" (17) e o Gramma ou Barricada (18) da época que se chamava Volkishe Beobachter produzia elementos "concretos" (19) de realizações de casas, construções de "bairros obreiros modernos", "novas instalações nos bairros de trabalhadores", etc...

Na sua rubrica permanente intitulada "O socialismo pelos actos", esse periódico apresentava a lengalenga demagógica clássica dos idiotas úteis ao serviço do Estado. David Schoenbaum exemplifica assim o conteúdo (20) "... contava como os trabalhadores de uma fábrica têxtil do sul da Alemanha se tinham oferecido como voluntários para realizar horas suplementarias de trabalho, para com o produto de esse trabalho, contribuir à caixa de ajuda aos acidentes de trabalho fundada pelos nazis,... como os camponeses ofereciam ao serviço de ajuda social das juventudes hitlerianas possibilidades de alojamento para passar férias a cinquenta mil crianças, e como o grupo de mulheres nacional-socialistas de Mannheim tinha proporcionado setecentos mais... como os empregados municipais de Dresden tinham criado um fundo para financiar uma esquadrilha de cinco aviões destinados ao governador da Saxa e para paliar às dificuldades financeiras dos S.S. e dos S.A... e tinham dado 1% do salário deles para sustentar o esforço nacional (Furderung der nationalen Arbeit)... Na mesma série, se encontravam outras histórias modelo, a realização de construções em bairros periféricos, a repartição dos benefícios da Preussische Zeitung de Erich Koch entre todos os seus empregados,... durante as festas da Natividade os funcionários do partido instalaram mesas em todos os bairros populares de Berlim e distribuíram presentes à população inclusive aos antigos comunistas (!!! NDR)" O que levará Scheumburg Lippe, adjunto de Goebbels a declarar "Este é o socialismo que eu buscava (repetimos que não é o Fidel Castro que realiza essas declarações NDR) e é uma honra para mim de servi-lo com todas as fibras do meu ser." (21)

Da mesma forma durante o nazismo as campanhas para a cultura popular foram intensificadas, todo o sistema de ensino foi modificado e modernizado. o acesso à educação foi generalizado e apresentado como um sinónimo de libertação humana e de socialismo. De facto tratava-se de reorganizar a força de trabalho para que sirva melhor o capitalismo, de que todos possam receber a "cultura", de patrocinar as carreiras tecnico-professionais e sobretudo uma profunda lavagem de cérebro para subordinar mais o trabalhador, como idiota útil, ao Estado nacional e aos seus interesses. Os que recebiam e obtinham diplomas, assim como os campeões do trabalho, os que demonstravam com obsequiosidade ser os mais serviles vassalos eram tratados como heróis: "Os laureados eram tratados como campeões olímpicos ou como grandes actores de cinema, eram conduzidos com grande pompa a Berlim e eram fotografados ao lado de Ley e de Hitler em pessoa." (22) E evidente que essa "promoção social" era propagandeada aos extremos.

Na prensa louvavam os exemplos de trabalhadores que no dia antes não tinham onde cair-se mortos e de "camponeses" sem nada para vestir que tinham obtido diplomas. Não é necessário insistir sobre o dramático das situações pessoais que a prensa apresentava "antes" e "depois" de ter "triunfado". Schoenbaum comenta: "Dado que a metade dos laureados saíam de famílias de assalariados e que 80% de estes não tinham alcançado o nível do ensino secundário, o regime procura por esse meio, no plano da propaganda, efectuar uma glorificação espectacular das suas classes laboriosas."

Como todo cínico socialista no governo de estado capitalista, Hitler se apresentava como o exemplo do trabalhador. Fazia-se fotografar executando "trabalho voluntário", sendo o "n1 nos regimentos de trabalho". Nem aqui os barbudos cortando cana de açúcar têm qualquer coisa de original. Os panfletos que distribui hoje a CEDADE reproduzem por um lado massas de musculosos trabalhadores marchando firme com pás e outros instrumentos de trabalho e do outro o próprio Hitler rodeado de militares dando o exemplo do trabalho pá na mão, cavando a terra, e junto a isto tudo algumas estrofes da canção da Frente do Trabalho "As nossas pás são armas de paz..." (23)

Toda essa "glorificação indiferenciada do trabalhador repousava sobre uma invocação quase sem limites da mobilidade social e insistia agressivamente sobre o igualitarismo social." (24) Como em todos os outros domínios dava- se em exemplo o próprio Hitler. Como todo regime de Trabalho, nada valia tanto como demonstrar que o seu melhor representante era um Trabalhador que vinha da "classe trabalhadora". E aqui o Hitler ganhava todos os prémios (25). No partido nacional-socialista se recitava um verdadeiro catecismo que dizia: "que profissões exerceu Hitler?" Resposta: "Hitler foi obreiro da construção, artista e estudante" e sempre que podia (e que o auditório assim o pedia!) Hitler recordava a sua qualidade de "obreiro exemplar e perseverante"; "Eu também durante minha juventude fui obreiro e pouco a pouco cheguei ao cume à força do meu trabalho, de estudo e também penso poder dizê-lo, de fome." (26)

Por suposto a verdadeira transformação do 1° de maio que tinha surgido como símbolo da luta contra o capital, em dia do trabalho, em dia de festa, foi obra do nazismo. Aqui como em outros pontos Hitler realizou o programa que sempre tinham prometido os socialistas burgueses, os sociais-democratas (27) e os grandes desfiles e festas que hoje encontramos em todo lado para celebrar o repugnante servilismo dos trabalhadores perante o Estado nacional (o exacto contrário daqueles heróis de Chicago), não podem no absoluto serem considerados invenções de Estaline, Mao, Perón ou Fidel Castro, senão obra do próprio Hitler.

Sem duvidas a mensagens centrais do regime foram "o trabalho enobrece" (Arbeit Adelt) e "o trabalho liberta" (Arbeit macht frei), "o homem se construi trabalhando". Para cúmulo, no mais impressionante campo de concentração, Auschwitz, figurava no portão em letras gigantes ARBEIT MACHT FREI (28). Não é só humor negro, senão a crença real de um sistema podre, do capitalismo em descomposição, de um sistema que leva o homem à sua máxima perdição, ao sacrifício total e completo da sua vida no altar dos deuses do trabalho, e à morte. "... o III Reich propunha uma ideologia do trabalho que recorria simultaneamente à soberba, ao patriotismo, ao idealismo... o elemento central do sistema era uma ética de trabalho que repousava não tanto sobre o trabalhador senão sobre o próprio trabalho... um dos motivos preferidos da arte oficial era o que se encontrava da gigantesca escultura de José Thorak para um monumento de auto-estrada com três monumentais musculosos que como Sisifo levantavam uma rocha enorme. As empresas edificavam verdadeiras capelas, cuja nave central desembocava no busto de Hitler colocado por baixo do emblema da Frente do Trabalho, e nos lados personagens proletárias de dimensões heróicas: eram verdadeiros pequenos templos consagrados ao deus nacional-socialista do trabalho." (29)

E dizer que como no caso de Estaline, ou de tantos outros dos seguidores dele de hoje, o trabalhador herói não era aquele que lutava contra a sua própria condição, que conspira e que como tal pode ser como tem sido na história grande ou baixinho com óculos ou sem, mulher ou homem, com ou sem gravata, imigrante ou "nacional", velho ou jovem, magro ou gordo,... senão que é a besta laborante, que sustem com a força dos seus braços o regime todo, o musculoso, exactamente a mesma personagem que põem na moda todos os regimes de trabalho forçado (macho, jovem, forte, nacional e nacionalista, trabalhador (30)).

Como não podia deixar de ser, para manter os ritmos mais altos de intensidade do trabalho e da exploração, a idealização do trabalho teve de ser acompanhada de algumas migalhas e duma organização do tempo livre tal que os trabalhadores estivessem sempre em boas condições para recomeçar a trabalhador com vigor. Nisto também os nazis foram os mestres de todos os socialistas laborais, incluído Estaline. Criaram uma organização especial "Kraft durch Freude", conhecida por KdF, isto é a Força através da Alegria. Esta organização que foi financiada com os fundos dos sindicatos dissolvidos teve indubitavelmente um êxito completo no controle dos trabalhadores. O seu programa de actividades foi amplíssimo: representações teatrais, conferencias, reuniões culturais, associações desportivas, subvencionadas, concertos, clubes de dança folclórica e moderna, cursos para adultos, exposições de arte, cine-clubes...

Hitler podia gabar-se e manter todos os mitos que permitiram o imponente aumento de exploração no seu socialismo nacional: "O povo trabalha com decisão e alegria e sabe que não está empenhado numa luta para o capital de uns poucos egoístas, senão para o bem-estar da colectividade." (31)

O êxito maior da KdF foi a organização do turismo para trabalhadores. Também aqui todos os laboristas e socialistas posteriores não passam de vulgares imitadores. A KdF chegou a organizar o tempo livre de milhões de trabalhadores enviando-os em férias organizadas (não é preciso demasiada imaginação para fazer-se uma ideia sobre estas!) e levando o sector turístico graças ao turismo subvencionado, a uma expansão sem precedente no mundo. Essa expansão provocada pelas necessidades do capital industrial, repercutiu-se favoravelmente na industria visto que a KdF impulsará a industria do transporte através a construção de dois enormes barcos e o desenvolvimento da industria automóvel, denominada primeiro KdFwagen, e depois Volkswagen. Como se sabe, tudo isto servia directamente à preparação da guerra e logo à guerra mesmo (32).

Através a sua promessa de popularização dos automóveis (que para maior parte não passou de ser nominal) e sobretudo do turismo, que na época eram considerados como símbolos de riqueza, como possibilidades exclusivas da burguesia, o nazismo semeava a ilusão da desaparição das classes. Essa imponente e absurda mentira que todos os grandes representantes do regime se encarregavam de propagandear estava todavia fortemente enraizada da sociedade alemã. A respeito do turismo R. Ley dizia: "O trabalhador percebe perfeitamente que queremos elevar a posição dele na escala social. Ele bem vê que não são as classes pretendidamente cultivadas que enviamos para o estrangeiro como representantes da nova Alemanha, senão que ele, o trabalhador alemão, é que é o nosso mensageiro para o mundo inteiro" e na "Conferência internacional acerca da política dos lazeres e do tempo livre" (33) Ley declara oficialmente "Não há mais classes na Alemanha. Nos anos a vir o obreiro perderá os últimos restos dos complexos de inferioridade que podem ainda restar do passado." (34)

Mas como qualquer outro regime socialista patriota que só busca maior exploração e melhor carne para canhão para a guerra imperialista, os seus dirigentes tem uma clara consciência desses objectivos, e às vezes até há alguns que têm a coragem de divulgá-los. Aqui Starcke secretário de prensa da Frente do Trabalho declara com a máxima desenvoltura: "Nós não enviamos os nossos obreiros nos nossos próprios barcos a realizar turismo e não construímos a grandiosa infra-estrutura de férias à borda do mar, para o prazer, nem para nós próprios, nem para os que podem ter a sorte de utilizá-las, senão porque queremos manter em bom estado a força de trabalho do indivíduo para que volte a tomar o seu posto com forças renovadas." (35)

Com esta medalha de ouro da sinceridade encerramos o capítulo sobre a apologia nazi do trabalho, tão igual ao que todos os socialistas nacionais realizaram na actualidade. Por outro lado o leitor estará suficientemente enjoado por esta sopa de laborismo, de fanatismo nacional e socialista a favor do trabalho. Voltamos à nossa luta contra o trabalho.

O problema da consciência obreira na luta contra o trabalho

Todos aqueles que não têm outra coisa para viver que a venda da sua própria força de trabalho sentem que realiza o seu trabalho porque não há mais remédio, porque apesar de todos os discursos lhes fazem, é a única forma que tem de procurar-se meios de subsistir.

Trabalha-se o menos possível e se se pode não se trabalha. Quando é possível, finge-se que se está trabalhando e tenta-se viver um pouco (se esta vida atrofiada pode chamar-se "vida"), demora-se na casa de banho, fuma-se um cigarro, tenta-se comunicar com outro trabalhador, modera-se o ritmo tentando sempre de comportar-se como um homem e não como uma máquina, como se se podiesse recobrar a existência humana comunicando com outro quando o chefe não o vê, nas pausas do trabalho, ou às escondidas na casa de banho. Se possível falta-se ao trabalho, adoece-se, de repente sofre-se de uma aguda dor de dentes, de cabeça ou de costas que ninguém pode verificar (nem sempre é mentira, às vezes de asco ao trabalho adoece-se a sério) e tudo parece confirmar que são nas segundas de manhã e nos dias em que se volta de férias em que mais adoecem os trabalhadores.

O absentismo segue generalizando-se; em todas as partes do mundo denunciam-se os sabotadores da produção; respondendo como se pode a todos as invenções para aumentar o ritmo de trabalho nas fábricas e oficinas se desenvolveram milhares de contra-invenções...

Não ver em todos esses factos aparentemente desconectados uma luta sórdida e escura, das duas classes antagónicas da sociedade, seria vedar-se os olhos; em cada um desses actos se contrapõe a conservação da escravatura assalariada com a luta contra o trabalho, para uma sociedade comunista.

Isto são os factos, indiscutíveis, vivos, que demonstram a putrefacção de uma sociedade baseada no trabalho, e o ódio que contra ela se concentra em cada um dos seus escravos assalariados... como também é um facto que cada vez mais a "preguiça", a "ociosidade" que no fundo não são mais que tímidas resistências humanas e instintivas contra o trabalho, são cada vez mais consideradas como delitos, para não falar já dos campos de trabalho para "parasitas sociais" ou para "delinquentes perigosos" que em Cuba por exemplo é sinónimo dos que sabotam a produção.

Todavia, na fase actual, na que tanto custa ao proletariado desprender-se da mais profunda contra-revolução ao qual ainda está submetido, estes factos ainda não são globalizados. Inclusive esses últimos mesmos que fazem o que podem para trabalhar o menos possível, que vivem enganando os chefes, os patrões e o Estado, esses não são capazes de compreender o alcance revolucionário das acções deles, e não só em certas circunstâncias esses tipos não se alinham nas reivindicações obreiras e na luta, senão que até a própria mensagem revolucionária "contra o trabalho" parece-lhes sem sentido e para louvar a outro por vezes escapa-lhes a litania burguesa "é bom homem, é trabalhador", "é um trabalhador exemplar", etc...

No dia a dia encontramo-nos com esses exemplos, de arrancar o cabelo e gritar "parece mentira!". A acção contra o trabalho embora socialmente em massa, se faz sozinho ou com um pequeno grupo (36), a consciência dos trabalhadores em geral continua atrofiada pela apologia burguesa do trabalho, e os próprios actores da luta contra o trabalho a condenam quando se grita abertamente que se combate o trabalho.

Mas esta situação não a tememos nós. Ao contrário é a situação de sempre na qual lutam os comunistas, contra a corrente, contra o pensamento e a consciência da maioria, mas para a acção e os interesses de esta, buscando tornar conscientes os métodos de luta que surgem espontaneamente.

O mais importante é, precisamente por ser subversivo, pôr em evidência que nesses casos isolados de sabotagem do trabalho que vivemos quotidianamente é contida a força revolucionária que é necessário libertar para espedaçar esta sociedade toda. Por isso hoje é imperioso, não só lutar para trabalhar menos, senão gritar claramente "abaixo o trabalho", "viva a luta contra o trabalho".

Viva o Proletariado

Os nossos inimigos, os apologistas do trabalho, os partidos do socialismo nacional sobretudo quando se auto proclamam marxistas, cantam vivas ao proletariado. Aqui como em outros sítios, e como vimos ao longo do texto, em realidade o proletariado só lhes interessa como trabalhadores, o que gritam em realidade é viva o proletariado ao trabalho, vivam os trabalhadores disciplinados, viva o desenvolvimento do país, e explicitamente ou não: viva a pátria. Isto é dizer que estas vivas ao proletariado fala-as a burguesia, o antagonismo mesmo aos interesses elementários da situação proletária e traduzido mais claramente ainda quer dizer: Trabalhai muito, apertai o cinto, a nação o necessita. E a esse respeito Fidel Castro e os sandinistas não nos desmentem, é isso e nada mais que eles querem de esses louvores ao proletariado, que sigua existindo durante muitos séculos mais, amen...

Quando os revolucionários dizem viva o proletariado não só se trata de algo diferente, senão contrário tanto nas suas primícias como em seu conteúdo, como nas suas consequências. Como primícia porque para viver o proletariado tem de combater. De facto, se para os "marxistas" o proletariado é algo como a suma sociológica dos homens que trabalham, para nós o proletariado existe em contraposição com a burguesia, contraposição existentemente na luta geral pela vida, desde a produção de objectos materiais até a organização em partido e a luta armada. Como conteúdo porque a vida do proletariado não se encontra no trabalho, porque o proletário vive reconhecendo-se a si e ao seus companheiros como seres humanos e isso só o pode fazer dentro da luta contra o trabalho. Enfim, como consequência porque o proletariado contrariamente à burguesia não tem interesse em prolongar a sua existência, senão que pelo contrario a sua existência como contraposição ao capital, seu desenvolvimento até a transformação em classe dominante, tem por objectivo a supressão de todas as classes e portanto a sua autosupressão.

Em síntese, enquanto os vivas ao proletariado proferidos pelos nossos inimigos são gritos de: viva a situação actual dos proletários. Os vivas dos comunistas são vivas à organização do proletariado em classe dominante para a sua própria supressão, para liquidar totalmente a sua situação actual, para abolir o trabalho assalariado, para que a actividade produtiva dele deixe uma vez por todas de ser trabalho e seja vida humana, enfim para que a humanidade possa iniciar a sua verdadeira historia como sociedade humana.

Notas

1. "E evidente que para a Economia nacional os proletários -quer dizer os que não vivem do capital, ou da renda, mas somente do trabalho, unilateral e abstracto- não passam de trabalhadores. Por isso pode assentar a afirmação de que o trabalhador como qualquer cavalo, tem de ganhar o suficiente para poder trabalhar. em vez de interessar-se por ele como homem, quando não trabalha, encarrega esse ponto de vista aos tribunais, aos médicos, à religião, aos quadros do Estado, à política e aos beleguins." (Marx "Manuscritos de Paris")

2. "... por uma parte o capitalista governa o trabalhador por intermédio do capital e por outra o poder do capital governa o próprio capitalista." (Marx)

3. "Arbeit macht frei" ver mais adiante.

4. E preciso recordar que a palavra "idiota" vem do grego e designava aquele que desconhecia, que ignorava os assuntos da polis, isto é da política, servindo com essa despreocupação os interesses dos tiranos. O caso é o mesmo para os obreiros que se despreocupam da política da classe à que pertencem, constituindo os melhores servos dos tiranos.

5. Mais uma vez encontramos a unidade indissociável dos interesses imediatos e históricos da classe obreira que o revisionismo se obstina a separar.

6. Marx criticando o programa do partido social-democrata alemão no seu ponto inicial "1. O trabalho é a fonte de todas as riquezas e de todas as culturas."... dirá: "o trabalho não é a fonte de todas as riquezas. A natureza é a fonte dos valores de uso (que são os que verdadeiramente integram a riqueza material!), nem mais nem menos que o trabalho não passa da manifestação duma força natural da força de trabalho do homem. Essa fase encontra-se em todos os silabários e somente é certa se subentende que o trabalho se efectua com os correspondentes objectos e instrumentos. Mas um programa socialista não deve permitir que tais tópicos burgueses silenciem aquelas condições sem as quais não têm qualquer sentido... Os burgueses têm razões muito fundadas para atribuir ao trabalho uma força criadora sobrenatural, pois precisamente do facto que o trabalho está condicionado pela natureza se deduz que o homem que não dispõe de outra propriedade que a sua força de trabalho, tem que ser, necessariamente em todo estado social e de civilização, escravo de outros homens, de aqueles que se apoderaram das condições materiais de trabalho. e não poderá trabalhar, e por consequente viver, sem a autorização deles!" (Marx "Crítica do programa de Gotha")

7. Ver a crítica a respeito de Marx na "Crítica do programa de Gotha", assim como na correspondência de Marx e Engels com Bebel, Kautsky, etc...

8. O capital é precisamente a emancipação do trabalho realizada, a libertação do trabalho da sua inseparabilidade com quem o realizou como actividade. Se o trabalho fosse simplesmente actividade produtiva estaria indissociavelmente ligado a esta actividade, como tal não pode emancipar-se "do trabalhador", parte e escravo do seu ser. Mas no capitalismo essa emancipação produz-se, pois o processo de trabalho está dominado por o processo de valorização, porque a própria realização do trabalho é a sua negação como actividade da qual o que resta é o trabalho coisificado. Mais ainda, o trabalho tanto se emancipou, que oprime quem o realizou e que longe de representar o poder da classe que durante gerações e gerações deixou a sua vida em ele, é hoje, como trabalho morto, a força emancipada da qual se serve a classe inimiga para perpetuar a exploração. O que se tem de reivindicar não é a emancipação do trabalho, mas poder emancipar-se dele. Na primeira concepção o trabalho é o sujeito que se emancipa, na nossa concepção é o homem que se emancipa do trabalho.

9. Taylor foi um burguês sumamente lúcido dos seus interesses de classe, que para compreender todos os subterfúgios que a nossa classe utilizava para trabalhar o menos possível, pôs-se a trabalhar como obreiro durante um certo tempo, a partir do qual elaborou um conjunto de normas para eliminar os "tempos mortos". A "ciência" dele consistia em controlar os tempos e movimentos, para administrar cientificamente o trabalho, promover métodos de "retribuição" para os trabalhadores que exacerbam a competição entre eles, para que só fiquem os mais trabalhadores e que os "calaceiros" se vejam obrigados a buscar trabalho em outro lado, etc...

10. "Aprender a trabalhar, é essa a tarefa que o poder dos Sovietes deve implantar no povo em toda sua amplitude. A última palavra do capitalismo a esse respeito é o sistema Taylor, que liga todos os progressos do capitalismo, a crueldade refinada da exploração burguesa com as conquistas cientificas mais preciosas (para Lenine como para todos os materialistas vulgares a ciência é neutra - NdR) no que diz respeito à análise dos movimentos mecânicos no trabalho, a supressão dos movimentos supérfluos e inábeis, a introdução dos melhores sistemas de contabilização e controle, etc... A republica dos Sovietes deve fazer suas, custe o que custe, as conquistas mais preciosas da ciência e da técnica nesse domínio. Poderemos realizar o socialismo justamente na medida em que temos sido capazes de combinar o poder dos Sovietes e o sistema soviético de gestão com os mais recentes progressos do capitalismo. E necessário organizar na Rússia o estudo e o ensino do sistema Taylor, a sua experimentação e a sua adaptação sistemática." (Lenine: "As tarefas imediatas do poder soviético" 1918)

11. O nome vem de um mineiro estalinista célebre por sua capacidade física como besta humana, para trabalhar num mesmo tempo muito mais que os seus "companheiros" de trabalho (estes por suposto não o consideravam tão "companheiro" que isso) e que o estalinismo adoptou como herói e exemplo. Na realidade o capitalismo não tem outro ideal de homem trabalhador fora dos Stakhanovs.

12. Adolf Hitler "A minha luta". Hitler afirma que este é "o ponto programático mais importante".

13. Konstantin Hierl, chefe do serviço do trabalho dos nazis.

14. E claro que toda a burguesia faz a apologia do trabalho, mas aqui tomamos alguns sectores mais representativos dessa apologia do trabalho feita pelo capital, aqueles governos e partidos onde o trabalho e os "heróis do trabalho" estiveram no centro de toda a política económica e social.

15. Citado por David Shoenbaum "A revolução castanha" p. 51 e 52.

16. Tendo em conta que a internação em massa de trabalhadores se fez à vista e com o consentimento da burguesia mundial e que até nem faltaram organizações burguesas judias para contribuir à criminal empresa.

17. Reproduzido em panfletos de CEDADE, organização nazi de Espanha.

18. Periódicos oficiais do "socialismo" realizado em Cuba e "em vias de realização" no Nicarágua respectivamente.

19. Não há dúvida que é precisamente o terreno do "concreto", do "particular", da "solução do problema de cada um", que mais se presta à demagogia oficial e à mentira generalizada com as quais se propagandeia um regime.

20. No livro antes citado p. 84 e 85. Isto tem aspecto anedótico e poderia parecer absurdo de incluí-lo aqui. Todavia tanto pela forma que pelo conteúdo deles, nestes "exemplos concretos de socialismo" o leitor reconhecerá mais de um discurso dos nossos inimigos.

21. Idem.

22. Idem.

23. Panfleto de CEDADE.

24. Schoenbaum Idem. p. 88.

25. Se alguns regimes não se conformam aqui ao exemplo, como o castrismo, isso é devido ao que Castro ao contrário de Hitler provem da alta burguesia cubana, e por isso preferem manter-se calados. E certo que sempre que pode a burguesia não perde a ocasião de confundir o assunto todo fazendo brilhar a extracção de classe como se fosse garantia de algo. Em realidade como o mostra o exemplo Hitler-Castro (e como podem contar-se centenas!) não é a extracção de classe o decisivo, senão a prática real a favor ou contra o regime de escravatura assalariada.

26. Discurso feito na fábrica Siemens em novembro de 1933.

27. "De facto o programa de socialização que os sociais-democratas não se atreveram a realizar quando detinham o poder, foi realizado em grande medida pelos fascistas. Da mesma maneira que as reivindicações da burguesia alemã não foram satisfeitas em 1848 senão logo pela contra-revolução que seguiu, o programa da social-democracia foi cumprido por Hitler. De facto, foi Hitler e não a social- democracia quem proclamou o primeiro de maio como dia de festa e de uma maneira geral é suficiente comparar o que os socialistas diziam que queriam realizar mas que nunca realizaram com a política praticada na Alemanha desde 1933, para dar-se conta que Hitler realmente realizou o programa da social-democracia sem requerer aos serviços dela." (Mattick Paul "Integração capitalista e ruptura obreira")

28. Nem aqui o actual regime do Uruguai que construiu o pior dos seus campos de concentração em "Liberdade" superou em cinismo os nazis. Difundem, debatem, reproduzem estes textos.

29. Schoenbaum p.109. As sublinhagens são nossas.

30. Com as revoluções industriais posteriores à segunda guerra a força física do trabalhador é hoje muito menos importante e pouco a pouco a imagem do trabalhador modelo, nos fascismos e socialismos nacionais atuais, foi-se adaptando a essa evolução incorporando um tipo mais comum de homem e mulher.

31. Declarações de Adolf Hitler citado por CEDADE.

32. Esses barcos de turismo serviram para o transporte de tropas e as Volkswagen serviram de veículos militares para todo uso.

33. Hoje o governo socialista francês considera-se original por ter um verdadeiro ministério dos tempos livres!

34. As citações de Ley são tomadas do livro de Schoenbaum p. 132,133,134.

35. Schoenbaum Idem p.134.

36. Quando se transforma em acção de uma fábrica inteira já é um facto excepcional, como todavia já sucedeu muitas vezes, quando superará essas barreiras e se estende à sociedade toda a revolução já não poderá ser detida.


OL.PO.3.3 Acerca da apologia do Trabalho