Introdução

Aqui está o terceiro número de Comunismo, órgão central em português do GCI, Grupo Comunista Internacionalista. Já tínhamos publicado dois números da nossa revista em português:

No.1 em janeiro de 1983: Contra a democracia

Explicamos mais adiante porque existe uma interrupção de quatorze anos (!) desde a última publicação. O GCI existe desde 1979 e já dispõe de um órgão central em língua francesa (48 números), espanhola (43 números), inglesa (10 números), árabe (5 número), alemã (1 número), húngara (4 números) e curda (2 números).

Em 1989, tínhamos também publicado em espanhol, francês e árabe as nossas "Teses de orientação programática". Essas Teses, resultado de 10 anos de prática militante do GCI, fazem parte do trabalho internacional e permanente de discussão, de confrontação, de crítica e de elaboração programática realizado historicamente pelos militantes revolucionários. A nossa geração de militantes é herdeira de lutas passadas e do que nos foi legado pelos revolucionários que, dessas lutas, tiraram e puseram a claro a direcção comunista do movimento. retomando a essência dos momentos mais fortes de ruptura com a sociedade capitalista e fazendo a avaliação das sucessivas derrotas da luta, as teses dos comunistas assim foram se afirmando e desenvolvendo precisão, ao longo da história do movimento obreiro. As nossas "Teses de orientação programática" situam-se nessa acção colectiva, histórica e invariante que busca exprimir teoricamente a prática comunista de ruptura com a sociedade capitalista, e sintetizam hoje as principais aquisições programáticas tiradas de toda a história das lutas. Mas, como expressões teóricas do movimento real de abolição da ordem estabelecida, essas teses são evidentemente imperfeitas e inacabadas e assim será até a vitória total da revolução comunista que vai pôr a claro as últimas consequências das determinações fundamentais da luta. As posições dos comunistas, das quais as nossas teses são uma tentativa de sistematização, não são nem "mandamentos" nem um conglomerado de ideias que, submetidas ao livre arbítrio, mudariam do facto da vontade de um ou de outro... Não erigimos as nossa teses em texto sagrado, pois não são o fruto de lucubrações ideológicas. são um momento do trabalho de reapropriação programática indispensável e decisivo na prática do Proletariado lutando para dotar-se de uma direcção revolucionária e para constituir-se em força mundial.

Ao início da história do nosso grupo, há a centralização de um pequeno número de militantes proletários de diversos continentes, falando várias línguas e que, a partir de experiências de luta diferentes, de análises amargas sobre a derrota dessas lutas, de rupturas proletarianasrupturas com o exílio organizado, ruptura com a reabsorção democrático-pacifista e antiterrorista organizaram as suas convergências e foram levados a definir um conjunto de afirmações programáticas decisivas, entre as quais sobre a democracia. Da crítica das liberdades e direitos democráticos, passando pela crítica do legalismo, do eleitoralismo, do federalismo, da polarização fascismo-antifascismo,... fizemos da nossa crítica una crítica cada vez mais total para chegar à crítica da democracia como modo de vida da sociedade mercantil generalizada, como essência do capital reproduzindo a sua dominação de classe.

Nosso pequeno grupo nunca teve nenhuma realidade nacional, não surgiu ligado a nenhum pais, nem se refere à historia de nenhum pais. Não teve como preliminar uma acção num determinado pais, a centralização dessa acção e só a seguir a necessidade de ultrapassar o quadro dessa luta par atingir o grau internacional.

Quando a acção militante conserva, apesar das posições internacionalistas, como quadro de referencia principal, um só pais, a actividade internacional e então considerada como uma simples associação federativa de organizações nacionais, como uma coalizão de grupos nacionais. Isto conduz inevitavelmente à adopção dum corpo de posições sociais-democratas negando o caracter revolucionário da luta proletária, tornando-se o simples negociador do preço da força de trabalho, preservando necessariamente os interesses do capital e da classe que o personifica, a burguesia.

No nosso grupo, o fenómeno internacional e a afirmação do internacionalismo superaram fenómeno nacional. Isto traduziu-se particularmente no facto que nos organizamos directamente ao nível internacional; não nos constituímos primeiro em "partido nacional" para abrir-nos depois ao "internacional". Dotamo-nos directamente de órgãos centrais, traduzido em várias línguas, que sempre trata dos interesses do movimento no seu conjunto, ultrapassando as heterogeneidades próprias à luta nas diversas regiões do planeta.

Nesta perspectiva, o nosso grupo tenta assumir directamente ao nível internacional uma centralização de todas as expressões do movimento comunista e exortamos todos os militantes ou grupos comunistas a operar d e um ponto de vista mundial. A centralização das forças comunistas é uma necessidade de sempre, em tempos de paz social como em tempos de luta intensa. Preparemos o futuro, camaradas!

oOo

Esta publicação em língua portuguesa é um paço nesse sentido. O internacionalismo passa pela luta contra as fronteiras linguisticas que reforçam a atomisação dos proletários, cada um na sua prisão nacional.

Nosso esforço para recomeçar a publicaçã da nossa revista em língua portuguesa junta-se ao esforço de sempre dos comunistas para quem a prensa representa um indispensável instrumento de propaganda revolucionária, de organização colectiva, de aprofundamento programático e de agitação.

O relançamento da publicação de uma revista em língua portuguesa é o resultado de diferentes parâmetros, entre os quais um esforço militante do nosso grupo. O abandono dessa publicação em 1985, depois de dois exemplares, explica-se pela fraqueza das nossas forças determinadas pela persistência da contra-revolução. De facto, nunca na historia da nossa classe tanto se negou a organização do proletariado como classe e se dilui o proletário num cidadão respeitoso de sociedade existente. A negação permanente do proletariado como classe, que actualmente é poderosa, tem como consequência trágica a falta de associacionismo permanente da nossa luta. A pratica militante; a acção comunista e internacionalista é assumida por minorias extremamente reduzidas. Assim, o nosso grupo encontra-se sistematicamente enfrentado a enormes tarefas que hoje nosso movimento exige e à nossa realidade de pequeno grupo para assumi-las. Assim, somos evidentemente sempre obrigados a ultrapassar os nossos limites para continuar a desenvolver o esforço internacionalista de publicação do nosso órgão central em varias línguas, apesar da fraqueza das nossas forças.

A publicação dos primeiros exemplares de Comunismo em português significaram um grande esforço para o nosso grupo. Isto deveu-se principalmente à falta de militantes que possuíam a língua portuguesa como língua materna. Mas a luta de classes que por vezes esgota energias militantes, também faz surgir outros camaradas que buscam cristalizar, centralizar e reforçar a sua militança dentro do nosso grupo. Hoje, com a participação activa de diferentes contactos, podemos continuar apublicação da nossa revista central em português.

Nosso interesse em publicar a nossa prensa nesta língua são vários:

O português é falado por centenas de milhões de proletários através do mundo (Portugal, Brasil, Angola...). Alem disso, o português é uma língua veicular em certas regiões da África e da Ásia (Timor leste, Guiné Bissau, Cabo Verde, Mozambique...).

Enfim, uma forte imigração espalhou pela Europa quantidade de proletários que falam português. Isto tudo faz que esta língua abre perspectivas internacionais interessantes. Resíduo do antigo império colonial, esta mundialização da linguagem dos proletários afinal vira-se contra os exploradores e servira a propaganda revolucionaria.

As experiências das nossas lutas históricas nessas regiões (1974 em Portugal, por exemplo...) ainda esperam de ser descrevidas, analisadas, sintetizadas. Múltiplos documentos existentes só nessa língua esperam pela leitura dos nossos camaradas.

Enfim, o desenvolvimento das nossas relações militantes com camaradas falando português, a leitura de documentos de luta (panfletos, jornais,...) originários de regiões de língua portuguesa, incitaram-nos a fornecer o esforço necessário a essa publicação.

Apesar dos limites da luta actual da nossa classe, esperamos que esta revista contribuirá a quebrar o estado geral de isolamento e fraqueza das forças revolucionarias. Que a pratica comum da luta contra o capital faça cair as barreiras linguísticas, e as outras!

Chamamos os camaradas militantes a apropriar-se do conteúdo desta revista. Os nossos textos não são propriedade de ninguém em particular, são propriedade de uma classe que vive, que luta para a abolição da sua própria condição de explorada, e portanto para a abolição de todas as classes e formas de exploração. Chamamos portanto os leitores a fazer de esta revista uma leitura militante; o que significa participar à discussão, à critica, à confrontação das posições... para esclarecer cada vez mais a essência do movimento proletário, os seus objectivos de classe e os métodos de luta em acordo com eles. Isto passa pela difusão e a reprodução da revista, as criticas, propostas, informações sobre as lutas, analises, troca de documentos...

Este exemplar de Comunismo é dedicado à critica do trabalho:

Actividade humana contra trabalho: em que se expõe o antagonismo entre ambos e se indica que a direcção histórica do proletariado como classe, para libertar a humanidade do trabalho, se concretiza nas palavras: "Abaixo o trabalho!"

Acerca da apologia do trabalho: contra o elogio que se faz dos "trabalhadores" e do "trabalho", que responde à necessidade de manter os proletários na condição de produtores de mais-valía, surge a perspectiva proletária contra o trabalho. Neste quadro se situam os diferentes partidos do trabalho (fascistas, estalinistas, castristas...) e a luta contra eles.

Falam-nos de paz... e fazem-nos a guerra!: publica-se aqui uma posição do nosso grupo sobre a guerra capitalista nos Balcãs, denunciando-a como uma guerra contra o proletariado e contra a revolução.

Memória obreira: "O obreiro e a maquina" ("Regeneracion" 1916) e "Ah as maravilhosas maquinas!" (GCI 1983): contra a defesa das forças produtivas do capital, se ergue a perspectiva revolucionaria de nunca defender os instrumentos da exploração e de luta para destruí-los.

Nesta "memória obreira" trata-se de evidenciar uma vez mais os elementos invariantes da continuidade histórica do combate militante contra o trabalho a partir de textos que foram escritos em diferentes momentos mas que convergem em uma mesma critica.

Da alienação do homem à Comunidade Humana: partindo do comunismo primitivo até a sua descomposição, descreve-se o capitalismo como resultado de um processo de desapropriação do homem e de separação entre os homens, até a sua atomisação em cidadão livre, no qual a deshumanisação atinge o seu ponto culminante. Em contraposição se define o comunismo como o que o proletariado é historicamente forçado a realizar, é a comunidade humana mundial, resultado das destruições de todas as separações baseadas na propriedade privada, as classes sociais, o dinheiro, o trabalho, o Estado.

Sublinhamos: Ontem, 25 campos de trabalho na Grã-Bretanha.

Teses de orientação programática GCI Tese 40.


OL.PO.3.1 Introdução