Em margem dum aniversário...

Marx contra tudo e contra todos

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De todos os lados vê-se aparecer oportunistas que se precipitam uma vez mais para roubar, devorar, desnaturar, falsificar,... o programa revolucionário e fazer dele uma mistura contra-revolucionária nojenta que eles denominaram "marxismo": trotskistas fazem peregrinações por toda a Europa (de Treves a Londres) para levar ao túmulo de Marx alguns ex-voto em forma de "programas de transição"; até os jornais abertamente burgueses saúdam a memória do "genial pensador", do "comunista", "sociólogo", "historiador", "jornalista",... daquele de quem a obra seria "ainda hoje de actualidade". A palma da vigarice recuperadora é dada no entanto a todos os regimes (os dois terços da humanidade apodrecida) que se proclamem "marxistas", "marxistas-leninistas", "socialistas", até "comunistas", e que do centenário da morte de Marx fazem mais um espectáculo mórbido à gloria daquilo contra qual Marx lutou toda a sua vida.

Da mesma maneira que eles se definem pela ditadura impiedosa do trabalho morto sobre o trabalho vivo, através da vampirização da vida humana ao proveito do valor autovalorizado, a relação capitalista exprime-se também ao nível superestrutural pela ditadura horrível de cadáveres ambulantes, mumificados, de ídolos inofensivos apresentados aos olhos das massas a fim de exorcismar cinicamente a sua não-vida, para uma vez mais os pressionar no altar da exploração capitalista. Quanto mais o capital se afunda (e portanto se desenvolve) nas suas contradições mortais, mais ele se representa caricaturalmente afirmando a sua imagem "comunista", "operária"... que de facto só é a transformação em seu contrário, do comunismo, cujo movimento lhe rasga cada vez mais as entranhas, ameaçando-o cada vez mais mortalmente. Se ao principio do seu reinado, a simples palavra de "comunismo" o fazia tremer de medo, à medida do seu desenvolvimento, o capital exorcismou-o apresentando-se ele-mesmo como sendo não somente a felicidade incarnada, a liberdade em acto,.. mas igualmente a "sociedade enfim humana", o "comunismo realizado". O mito supremo do capital é a sua pretensão, através da sua comunidade fictícia, a democracia, de ter realizado o comunismo. Este mito deve-se ao facto do próprio capital ter socializado integralmente a produção (e, portanto a produção /reprodução da vida imediata em suspenso) e portanto realizado o programa do socialismo burguês (1). E este capitalismo mundial sempre mais desenvolvido e contraditório que torna cada vez mais o comunismo como uma necessidade histórica inelutável, como facto consumado.

O movimento do capital quereria realizar o comunismo sem se destruir (como o valor de troca "quereria" autonomizar-se totalmente do valor de uso); ai reside a sua utopia. Só o proletariado organizado em classe e portanto em partido pode impor o comunismo à humanidade destruindo o capital de alto a baixo, negando-se como classe exploradora; é esse o programa do comunismo revolucionário. Unicamente o proletariado constituído em classe autónoma quer dizer organizado e dirigido pelo seu partido é capaz de ameaçar a podridão capitalista gangrenando sempre e mais o que há de humano no homem, homem que por sua vez é capaz de realizar a comunidade humana mundial (negação da negação). A utopia do capital é portanto a de querer existir sem contradições, de existir unicamente como polo positivo, de existir sem o partido da sua negação, o partido da sua destruição, o partido proletário (2). E em nome desta utopia que o capital vai até ao ponto de se apropriar privativamente do cadáver de Marx, roído já a muito pelos vermes do reformismo social. No espectáculo do capital a múmia de Marx encontra-se no mesmo altar que Jesus-Cristo ou Gandhi. Tal como na China onde os numerosos cartazes apresentam Marx com os olhos asiáticos, a burguesia mundial só representa Marx como uma tentativa entre outras de reformar o mundo, isto é, de o tornar ao mesmo tempo mais desumano e mais aceitável a todos os exploradores. A este Marx vedeta póstuma e bem colocada no hit-parade das ideologias, nós opomos por nenhum e contra todos, o Marx militante, o Marx incarnação modesta e genial do programa revolucionário existindo impessoalmente antes e depois da sua morte.

"O comunismo é uma força social material que subjuga a nossa inteligência, capta os nossos sentimentos e realiza a união da nossa consciência e da nossa razão. E uma corrente da qual não nos podemos libertar sem nos quebrarmos o coração. E um demónio sobre o qual o homem só pode triunfar submetendo-se a ele." (Karl Marx)

Marx e o ponto de vista do comunismo

Todos os turiferários da causa capitalista apresentam e apresentarão sempre o "indivíduo" Marx como um "pensador" mais ou menos inteligente, como um "filósofo", um "sociólogo"... colocado numa destas pequenas categorias acanhadas apelos ciências. Para nós, Marx é antes de tudo um militante operário, um combatente convicto da causa da libertação da humanidade não desprovido de crítica. Se, ao principio da sua acção, Marx passou pelo liberalismo democrático (período do "Rheinische Zeitung" 1842-43) e pelos grupos da esquerda Hegeliana (B.Bauer e seus consortes), ele rompeu muito rapidamente com essas correntes da burguesia radical para aderir à causa do comunismo, à causa da destruição total da "sociedade civil", da sociedade burguesa. E através de textos fundamentais como "a questão judaíca "os manuscritos de 1944", que Marx rompe definitivamente com o ponto de vista burguês da democracia e toma inteiramente um ponto de vista proletário do comunismo (3).
"Na verdade, o Estado cristão perfeito não é o suposto Estado cristão que reconhece o cristianismo como o seu fundamento, como religião de Estado tomando uma atitude exclusiva para com outras religiões: é antes o Estado ateu, o Estado democrático, o Estado que relega a religião entre outros elementos da sociedade burguesa."
(...) "Crista, é a democracia política em que o homem, cada homem nela é considerado suberano, o ser supremo; mas este homem é o tipo humano inculto, anti-social, é o homem na sua existência acidental, o homem quotidiano, o homem tal como ele foi subvertido por toda a organização da sociedade, tal como ele se perdeu, se alienou e se entregou ao reinado das condições e dos elementos desumanos, numa só palavra, o homem que ainda não é um ser genérico real. A quimera, o sonho, o postulado do cristianismo, a soberania do homem cujo ser é diferente do homem real, tudo isto na democracia toma figura de realidade concreta e presente, tudo isto é uma máxima profana."
(...) "O homem não foi portanto emancipado da religião; ele recebeu a liberdade religiosa. Ele não foi emancipado da propriedade; ele recebeu a liberdade da propriedade. Ele não foi emancipado do egoísmo da industria; ele recebeu a liberdade da industria."
(A questão judaica -1843)
É neste texto que Marx impõe magistralmente, entrando em polémica contra Bauer, as bases programáticas da luta à morte contra o Estado burguês e portanto contra a democracia, posição que ele e Engels manterão durante toda a vida deles: "O nosso objectivo final é a supressão de todo o Estado e por consequência da democracia" (Engels 1894). E, simultaneamente a esses aforismos anti-estatais e antidemocráticos, Marx definia a solução à alienação humana (4), a solução de todas as contradições que abalam o mundo no qual vivemos: o comunismo.
"Ele é a verdadeira solução do antagonismo entre o homem e a natureza, entre o homem e o homem, a verdadeira solução do conflito entre a existência e a essência, entre a objectivação e a afirmação de si mesmo, entre a liberdade e a necessidade, entre o indivíduo e a espécie. Ele é o enigma resolvido da historia e ele é consciente disso."
(Manuscritos de 1844)
A partir desta adesão ao ponto de vista comunista, a obra de Marx afirmar-se-á sempre e mais como uma totalidade, como um conjunto crítico onde, desenvolvendo uma ou outra questão, a um ou outro nível de abstracção, é sempre do ponto de vista da globalidade (da qual ele fez múltiplos planos só conseguindo no fim de contas produzir uma ínfima parte daquilo que ele previa). O ponto de vista e o método são os eixos centrais que Marx manteve durante toda a sua vida. Toda a força da sua obra reside portanto nesta totalidade, na invariabilidade do seu método crítico de investigação (5) sempre posto ao serviço da denúncia do carácter transitório do capitalismo e portanto da vinda inelutável do comunismo.

Portanto não é por acaso" que todos os crápulas estalinistas, democratas ou outros sempre tentaram destruir cientificamente a globalidade da obra de Marx, de ver contradições onde só existem diferentes níveis de abstracções, ou de opor certas passagens extraídas do seu contexto com a totalidade do trabalho militante. Por exemplo, a "famosa" e falsa "contradição" entre a teoria do valor desenvolvida no livro I do capital e a outra dita "preços de produção" do livro 3 (publicado afinal por Engels/Kaustky). Ainda mais "célebre" é a polémica acerca do pseudo "corte epistemológico" entre o jovem Marx hegeliano utópico e o Marx maduro, sério, científico e "não revolucionário"... falsa teoria que deu notoriedade ao neo-estalinista Althusser e a todo o grupo de "marxólogos" pagos para fazer desaparecer da obra de Marx o conteúdo subversivo deixando só as "análises objectivas e científicas" e portanto burguesas (cf igualmente os Polantzas, Mandel, Harnecker, Ellenstein,...).

A obra de Marx só pode ser compreendida como um ataque, uma crítica de toda a sociedade burguesa assim como o próprio Marx dizia da publicação do Capital, "o mais terrível míssil que já foi lançado à cara dos burgueses" (Marx a J. Ph. Becker 1867) enquanto Marx toma plenamente o partido do comunismo, é igualmente definindo socialmente os homens que são os únicos capazes de realizá-lo: os proletários modernos. É portanto concebendo o comunismo não como ideal a atingir mas como o movimento de dissolução da ordem estabelecida, movimento que se desenrola à nossa vista, e determinando os homens constrangidos a impô-lo, que Marx efectua a rotura com os socialistas utópicos (Fourier, Owen,...) criadores de sistemas, não conseguindo ver o comunismo como um movimento real, uma força social agindo na realidade. A definição essencial desses homens, determinados historicamente a impor, pela sua violência de classe, o comunismo, Marx não a procura nem na filosofia, nem na ciência, e muito menos na economia; ele define o proletariado pela sua função histórica; ele define o proletariado como coveiro do velho mundo, como a classe que não tem nada a perder mas sim tudo a ganhar. Contrariamente aos delírios "operareiristas", Marx define a classe revolucionária como aquela que, na realidade, é a dissolução da ordem estabelecida, que, pelo seu confronto cada vez mais forte contra o Estado burguês, afirma cada vez mais nitidamente o seu carácter subversivo e revolucionário.

"Uma classe com correntes radicais, uma classe da sociedade civil, uma ordem que é a dissolução de todas as ordens, uma esfera que possui pelos seus sofrimentos universais um caracter universal, que não reivindica um direito particular porque não se cometeu contra ela uma injustiça particular mas sim a injustiça pura e simples que não pode apelar a um titulo histórico, mas somente a um titulo humano, que não esteja em oposição unilateral com as consequências mas em oposição global com os pressupostos da forma do Estado, uma esfera enfim que não se pode emancipar sem se emancipar de todas as outras esferas e daí as emancipar todas, que, numa só palavra é a perda total do homem e que só se pode reconquistar através, da reaquisição completa do homem. A dissolução da sociedade na qualidade de Estado particular, é o proletariado."
A adesão de Marx ao comunismo não é portanto adesão a uma nova escola de pensamento, filosofia, religião ou seita. Quando ele adopta o ponto de vista comunista que mantém até a sua morte, compreendendo que o comunismo é, um movimento vivo, conduzido pelo proletariado revolucionarão (episódio da revolta dos operários silesianos), movimento que ele vai sempre tentar dirigir, organizar, tornar mais forte tanto do ponto de vista da organização como no ponto de vista programático. Nesse sentido, a obra de Marx é antes de tudo obra de partido, obra da colectividade impessoal que imporá o comunismo. Uma vez claramente situado no campo proletário, Marx vai tentar tornar mais sólidas as suas teses, mais operacionais, e isto, críticando fortemente todos os elementos que impediam do ponto de vista comunista a compreensão do mundo e em primeiro lugar, as ideologias que a burguesia tinha inventada para justificar a sua dominação de classe, que estas se chamem filosofia, religião, história ou economia. Marx não se tornou comunista por ter estudado "cientificamente e objectivamente" os diferentes aspectos do conhecimento humano mas pelo contrário, é porque ele já era comunista que pôde destruir completamente todas as ciências burguesas, que pode, demonstrando o caracter limitado e transitório das classes, prever a vinda dum mundo sem classes, sem Estado, sem dinheiro...
"Todo o método é necessariamente ligado ao ser da classe correspondente." (Lukacs)
"O único ponto que distingue realmente a teoria marxista, é que ela representa os interesses duma outra classe, que ela tem do seu carácter de classe uma consciência racional (e não mitológica sobre o modo nacional-socialista ou fascista) e proclama-o altamente." (K. Korsch) (6)

Marx: militante do partido comunisto

Em toda a actividade de Marx, teoria e prática foram sempre duas expressões com níveis de abstracção diferentes, dum todo orgânico. Marx ele mesmo é a expressão desta totalidade que significa a palavra praxis, totalidade onde não se pode nunca dissociar a teoria da acção sem desnaturar a unidade que estes diferentes termos isoladamente não conseguem transmitir. É neste sentido que Marx é antes de tudo um militante comunista que vai aplicar em todos os aspectos da sua actividade o mesmo método para atingir a mesma finalidade: a libertação do homem. Marx disse nas suas teses sobre Feuerbach, redigidas em Bruxelas em 1845: "a coincidência da mudança das circunstancias e da actividade humana ou da autotransformação, só pode ser concebida e percebida racionalmente como prática revolucionária. "Da mesma maneira, a vida e a obra de Marx só podem ser compreendidas como práticas revolucionárias. E esta compreensão só pode ser obra de indivíduos, grupos,... situando-se na mesma via que Marx: a via do comunismo, a via do partido comunista.

É neste mesmo período, depois de ter constituído com alguns camaradas um "comité de correspondência comunista" (1846) que Marx e Engels aderiram à liga dos comunistas. Esta adesão à liga é ao mesmo tempo um combate contra todas as formas arcaicas do comunismo (Weitling) e contra as influências dos socialistas-burgueses (Proudhon com quem Marx ajusta contas em "Miséria da filosofia" escrito neste mesmo período em Bruxelas). Depressa, Marx assume no seio da liga uma função dirigente, encarregado de redigir os estatutos, o novo programa e de reorganizar a liga.

Logo com o artigo 1 destes novos estatutos, Marx afirma claramente a finalidade de sempre dos comunistas: "o alvo da liga é o derrubamento da burguesia, o domínio do proletariado, a abolição da velha sociedade burguesa fundada nos antagonismos de classe e a instauração duma sociedade nova, sem classes e sem propriedade privada." O artigo 2 insiste nas exigência militantes: "as condições de adesão são: a) um modo de vida e uma actividade conformes a esta finalidade; b) uma energia revolucionária e um zelo propagandista; c) fazer profissão do comunismo (...)" (citado no "partido de classe" antologia de textos de Marx e Engels feita por Dangeville). Todo o trabalho de Marx no seio da liga, como mais tarde no seio da associação internacional dos trabalhadores, vai ser de transformar esta organização "contingente e limitada" numa organização mundial de combate para o comunismo implicando ao mesmo tempo uma rotura com as velhas práticas de seita e com as concepções utopistas que reinavam ainda largamente no seio do movimento operário. É para levar a bem estas tarefas que Marx, depois dum primeiro projecto de Engels (cf. o projecto de profissão de fé comunista redigido por Engels, ainda largamente marcado de velhas formulações utopistas), aceita redigir um novo programa para a liga dando-lhe directamente um contudo histórico duma importância tal que este texto terá não o título: "Manifesto da liga" mas o mais fundamental: "Manifesto do partido comunista" (redigido em 1847 e publicado em 1848). Efectivamente, o manifesto e muitos outros textos d; Marx-Engels são directamente textos de partido, expressões essenciais do programa comunista (7).

Este programa da classe revolucionária não é redutível a um ou outro texto, ainda menos a uma ou outra "plataforma" de organização formal. Ao contrário, o programa comunista vive e afirma-se primeiro como praxis, como movimento confrontando-se violentamente ao Estado burguês. Alguns textos exprimem de maneira mais sintética e mais total a finalidade e o movimento comunista. O programa como totalidade invariável não pode ser identificado com as suas expressões teóricas ou pior ainda "escritas". Forma um todo indissociável e só pode ser compreendido assim. O Manifesto do partido comunista e nesse sentido exemplo brilhante porque ele se afirma além das contingências temporárias e geográficas; é directamente na sua globalidade, uma das melhores sínteses do programa "invariável" do movimento operário. Mas ninguém, excepto os imbecís, ousarialimitar as expressões do programa revolucionário ao manifesto de 1847. Mais uma vez aqui podemos opor a praxis de Marx a todos os seus epigónios formalistas para quem sem um texto chamado "programa"" ou pior ainda plataforma"" o movimento comunista e a sua organização em partido não poderia existir. Dos três textos fundamentais "o manifesto", "o capital", ou "os Grundrisse", não há um que seja mais que outro expressão do programa comunista. Cada um destes textos, como todos os textos comunistas passados e futuros, exprimem um certo nível de abstracção, um certo nível de compreensão da globalidade programática e são expressões mais ou menos desenvolvidas do programa invariável Estes textos, obras impessoais do partido, têm funções diferentes: o Manifesto é a apresentação das posições fundamentais dos comunistas frente à burguesia, enquanto ",o capital" por exemplo e a demonstração implacável do fim catastrófico do modo de produção capitalista g portanto da vinda inevitável do comunismo, mas os dois são sobretudo expressões essenciais e incomparáveis dum só e único programa o do comunismo.

Toda a história do movimento comunista demonstra que certos textos, certos indivíduos ou certas acções... considerados pelos "marxólogos" e outros universitários como insignificantes têm de facto um nível superior de síntese e de compreensão enquanto certos textos pretendendo ser o resumo ou a codificação definitiva do comunismo só representam a formalização da diminuição do movimento operário, a cristalização de posições contra-revolucionárias. É Kautsky (e os seus discípulos) que era considerado o "marxista" ortodoxo, o único depositário da "verdade marxista" enquanto todas as expressões autenticamente revolucionárias eram desnaturadas e rejeitadas por "radicalismo", "anarquismo",... (por exemplo, as denúncias de D. Nieuwenhuis contra a "segunda internacional"). Mais claro ainda, é o camuflagem das experiências e da história da esquerda comunista alemã, italiana, belga, mexicana, indua,... Ou ainda a censura, as calúnias que circulam à volta dos militantes comunistas, de chefe. operários tão importantes, a títulos diferentes como Blanqui, Corter, Miasnikov, Vercesi ou Korsch. Quem ousaria dizer que a internacional comunista não existia antes de 1928. Ora, a IC só adoptou um programa, redigido por Boukharine para o congresso mundial no 1 de Setembro de 1928, quando este programa não era mais que a formalização de toda a degenerescência da IC, a cristalização de todas as posições contra-revolucionárias que se afirmaram cada vez mais nitidamente ao longo dos congressos.

A nossa preocupação aqui, não é de desprezar a importância de produzir a certos momentos documentos do tipo "posições fundamentais dos comunistas" ou do tipo orientação geral; queremos sobretudo denunciar o mito muito falado que uma organização comunista só existiria, teria uma coerência e uma incoerência na linha histórica do partido se tivesse (e de preferência antes de outra actividade) um texto sagrado chamado "plataforma" ou "programa" tentando assim assimilar voluntariamente ou não, as suas posições organizacionais ao programa histórico do proletariado. Nós, comunistas, não nos referimos exclusivamente a um ou outro texto decretado sagrado e a frente do qual o proletariado revolucionário deveria ajoelhar-se, seja o Manifesto, as teses de Roma ou a plataforma de um ou outro grupo formal. Fazemos referência a uma totalidade orgânica onde cada expressão do movimento comunista encontra um lugar em função da maneira em que ele consegue melhor incarnar o arco histórico da comunidade natural até o comunismo integral e isto independentemente de toda aviso imediatista, contingente e limitada. E porque são textos reais do partido que os escritos de Marx são hoje cada vez mais um guia para a nossa acção. Mas Engels já sublinhava para os leitores as insuficiências do Manifesto e é de notoriedade pública que Marx, depois da experiência da comuna de Paris, indicou a necessidade de mudar a formulação de "conquistar o Estado democrático pela exigência da destruição completa".

"A comuna demonstrou que a classe operária não se pode contentar em conquistar a máquina do Estado e em fazei-la funcionar por sua conta própria (...). Da mesma maneira, se as observações sobre a posição dos comunistas frente aos outros partidos de oposição (Capítulo IV) ainda hoje são exactos no seu principia sua exposição modificou-se totalmente e a evolução histórica fez desaparecer a maior parte dos partidos que nele são enumerados. No entanto, o Manifesto continua a ser um documento histórico que não nos sentimos no direito de modificar."
(Engels - prefácio de 1888 à edição inglesa do Manifesto)
Assim, com o Manifesto, são pela primeira vez expostas, de maneira global e sintética, as posições fundamentais dos comunistas. Marx Engels durante toda a vida não só exposeram, explicitaram, desenvolveram, as linhas de força traçadas neste texto, mas em todos os momentos, eles tentaram na medida do possível, dirigir as forças que praticamente são historicamente determinadas a realizar a revolução comunista. Como o diz o Manifesto: "E tempo que os comunistas exponham à face do mundo inteiro as suas concepções, as suas finalidades, as tendências deles e que eles oponham às lendas do espectro comunista um Manifesto do partido ele-mesmo."

A cada período revolucionário que aparecia, Marx tentava organizar, dirigir o Movimento seja na ocasião dos movimentos de 1848 (ver as lutas de classe na França) onde Marx involveu-se pessoalmentevárias vezes ou mais tarde na ocasião da fundação em 1864 da Associação Internacional dos Trabalhadores mais conhecida com o nome de primeira internacional, que retomou slogan central a sentença do Manifesto: "Proletários de todos os países, unam-se" e que foi considerada a justo titulo como a instigadora, a direcção política real da comuna de Paris em 1871 (enquanto a direcção formal - o comité central da comuna - andava com rodeios, oscilava entre os interesses operários e a capitulação frente ao inimigo). Pelo contrário, Marx aproveitou sempre os períodos de recuo, os períodos onde a contra-revolução dominava totalmente (por exemplo de 1850 a 1864) para aprofundar as bases programáticas do movimento ao risco de se encontrar a contracorrente das organizações formais ainda existentes. E esta posição a contracorrente que Engels exprime violentamente numa carta escrita a Marx:

"Como podíamos ser dum 'partido' nós que fugimos como a peste aos postos oficiais? Que nos importa um 'partido' a nós que cuspimos sobre a popularidade, a nós que duvidamos de nos próprio logo que começamos a nos tornar populares? Que nos importa um 'partido' quer dizer um grupo de burros que só juram por nos porque pensam que somos parecidos a eles? De facto, não será uma perda, quando já não passarmos por ser 'a expressão exacta e conforma' desta banda limitada à qual nos associaram todos estes últimos anos."
(Engels - citado no "partido de classe" - Tome 11)
Que saudável vigor classista tem esta passagem, crítica de todos os pseudo-partidistas, defensores antes de tudo do feiticismo da organização formal, que afirmação da necessário trabalho de partido, obscuro, impopular, a maior parte do tempo semeado de críticas e de calunias atiradas por todos aqueles senhores que tentam antes de tudo ter fama. Na prática de Marx, encontra-se intimamente inscrita a sua compreensão fundamental das tarefas que devem assumir em permanência os comunistas: ao mesmo tempo as tarefas de afirmação / aprofundamento do programa revolucionário e ao mesmo tempo quando as condições materiais o permitem, as tarefas de organização, de direcção dos movimentos que se desenrolam sob os nossos olhos. É por isso que quando o movimento é vencido e que reina a contra-revolução, Marx foi sempre o motor da dissolução das organizações formais (a liga - a AIT) antes que estas passem à contra-revolução e isto, sem abandonar de maneira nenhuma o trabalho de partido. Enquanto se desenvolvia uma onda revolucionária, Marx, mantendo ao mesmo tempo as suas outras tarefas, tentou sempre dar uma direcção ao movimento, organizá-lo no sentido do comunismo, no sentido da sua unificação internacional. Por isso, independentemente da sua adesão a qualquer grupo, Marx trabalhou sempre na linha histórica do partido, sendo sempre um militante do partido comunista.
"Marx era antes de tudo um revolucionário."
(Engels - 17 de Março de 1883 - discurso no decorrer do funeral de Marx)

Marx e a invaraibilidade do marxismo

Como já vimos neste texto, a contra-revolução vai tentar desnaturar o Marx revolucionário, tirar-lhe o seu conteúdo subversivo para reter só um reformador utópico, cheio de boas intenções. Mas esta desnaturação, este envilecimento, pode tomar não só a forma da rejeição explícita das conclusões revolucionárias de Marx, da sua necrologia do capital para guardar uma simples biologia (tradição social-democrata, reformista, social-cristã,...) mas pode também complementarmente tomar a forma da reivindicação formal do "marxismo ortodoxo", do salientar de restrições contingentes para negar de facto a validade dos princípios fundamentais. Tal é a obra da "ortodoxia" tipo Kautsky, da "invariável formal" (tradição estalinista, trotskista, "bordiguista",...) contra a qual a liberdade de crítica não traz nenhuma solução senão o abandono dos princípios ao proveito de inovações e outros "avanços" situando-se fora da linha histórica do programa comunista e à qual só podemos opor a verdadeira invariabilidade a verdadeira ortodoxia: a do ponto de vista de classe e do seu método próprio:
"O caminho da consciência no processo histórico não se aplana, ao contrario, torna-se cada vez mais árduo e pede uma responsabilidade cada vez maior. A função do marxismo ortodoxo -que ultrapassa o revisionismo e o utopismo - não é portanto uma liquidação, uma vez para sempre, das falsas tendências, é uma luta sempre renovada contra a influência perversa das formas do pensamento burguês sobre o pensamento do proletariado. Esta ortodoxia não é a protectora das tradições mas a anunciadora sempre desperta da relação entre o momento presente e as suas tarefas em relação à totalidade do processo histórico."
("O que é o marxismo ortodoxo" - Lukacs 1919)
Esta problemática fundamental da invariabilidade real pode exemplificar-se através de todas as posições que destacam os comunistas. O Manifesto do Partido Comunista proclama: "além disso, acusou-se os comunistas de querer abolir a pátria, a nacionalidade. Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar o que não tem" a afirmação da invariabilidade real do movimento operário: nunca, em nenhuma altura, o proletariado revolucionário tem pátria, nacionalidade. O seu caracter internacionalista é directamente contido na sua essência mesma. O proletariado constitui - se em classe, quer dizer como totalidade histórica e mundial - centralismo orgânico, centralização no tempo e no espaço.

E quando operários lutam para uma pátria, para uma nacionalidade, significa essencialmente que o proletariado deixa de existir como classe (Cf as situações de guerras imperialistas na sua primeira fase), que se proletários atomisados têm "uma pátria" é como cidadãos, como membros da sociedade burguesa e não como coveiros do velho mundo. O ponto de vista do comunismo é "invariável": ou o proletariado pela sua constituição tendência em classe e portanto em partido realiza a sua essência universal e internacionalista - o proletariado não tem pátria - ou é desfeito peta contra-revolução, não existe mais como classe, só restam indivíduos submetidos totalmente à ideologia burguesa da nação, da pátria (8). Mas isso, todos os "ortodoxos", os "invariáveis", afirmando que "o proletariado não tem pátria", vão negá-lo logo depois, introduzindo uma infinidade de restrições: "o período", "os casos particulares", "as condições especificas"... que tornam de facto a afirmação comunista caduca respeitando o teor do texto tornado sagrado e santificado.

Este processo de "aspiração" do conteúdo subversivo para guardar só a frase, encontra evidentemente uma base material nos textos e nas confusões do próprio Marx. É por isso que depois de ter dito que os operários não têm pátria, todos os seus epígonos vão largamente dissertar sobre a frase seguinte, a saber: "como o proletariado de cada país deve primeiro conquistar o poder político, erigir-se em classe dirigente da nação, tornar-se ele-mesmo a nação, ele é dessa maneira nacional; mas não no sentido burguês da palavra." Esta frase é evidentemente uma contradição, contingente, à afirmação programática que a precede; da mesma maneira que se encontra nesta ultima frase a compreensão confusa de "conquista do poder político", substituída por Marx pela visão da necessária destruição do Estado burguês. Duas atitudes erradas vão portanto desenvolver-se na base desta "contradição" de Marx: dum lado a atitude (modernista/inovadora)de rejeição destas expressões programáticas sob pretexto que algumas formulações são confusas (ou até totalmente falsas), ainda marcadas pelas visões do inimigo, e doutro lado, a adesão a todas as frases significando uma adição simples de posições contraditórias, o que significa o mesmo que adoptar uma posição contra-revolucionária. Depois de ter rejeitado o nacionalismo pela porta, tenta-se fazê-lo entrar de novo pela janela. nisto que até o Manifesto pode servir e servirá talvez ainda a justificar as piores guerras capitalistas, os piores delírios nacionalistas e patrióticos.

Ora, toda a história da nossa classe (1789, 1848, 187I, 1905, 1917, 1927, 1935,... 1983,...) demonstra desde a sua origem até os nossos dias, duma maneira cada vez mais forte, a validez da única posição internacionalista, antinacionalista, antipatriótica de princípio.

"Sobressai desta experiência desastrosa que quando o proletariado começa a defender 'a sua pátria', 'a nação oprimida', atinge um só resultado, quer dizer reforçar a sua própria burguesia. (...) O proletariado desenvolve o seu movimento, faz a sua revolução como classe e não como nação."
(L'Ouvrier Communiste - No.2-3 - Octobre 1929)
Mais uma vez, esta posição histórica dos comunistas tinha sido claramente afirmada por Marx (mesmo se desta vez ainda os nossos "ortodoxos", "invariáveis", utilizam outras frases ou textos que circunstancialmente afirmam o contrário).
"A nacionalidade do operário não é nem francesa, nem inglesa, nem alemã, é o trabalho, a escravatura livre, a venda de si-próprio. O seu governo não é nem francês, nem inglês, nem alemão, é o capital. A sua atmosfera natal não é nem francesa, nem inglesa, nem alemã, é a atmosfera da fábrica. O solo que lhe pertence não é nem francês, nem inglês, nem alemão, está a alguns pés por baixo da terra."
(Marx - crítica da economia nacional - 1845)
A obra de Marx (e é nisto que ela nos interessa) é assim uma fantástica síntese das posições que, historicamente, demarcaram o proletariado da burguesia. Esta síntese continua, em muitos pontos, inigualável, Marx tendo uma vez para sempre traçado as grandes linhas do programa comunista. Vimos como se afirmava claramente o carácter directamente internacional e internacionalista do proletariado, pedra chave da compreensão de que a revolução será mundial ou não será. Podemos assim analisar todas as perguntas fundamentais do programa revolucionário, todas as perguntas que hoje ainda constituem a fronteira entre os interesses proletários e aqueles da burguesia e ver em quê Marx definiu magistralmente as "condições do andamento e dos fins gerais do movimento proletário" (Manifesto).

Sobre a questão central do Estado, Marx, como o seu amigo Engels, definiu, duma maneira muito clara, a imperiosa necessidade de destruir completamente o estado burguês e não de o conquistar ou de o ocupar. (ver igualmente "o estado e a revolução" de Lenine). Uma vez esta destruição do Estado burguês acabada, situa-se um período de transição onde o proletariado organizado em classe dominante impõe a sua ditadura de classe para a abolição do salário.

"Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista situa-se o período de transformação revolucionário de uma para a outra. A que corresponde um período de transição política onde o Estado não poderia ser outra coisa que a ditadura revolucionária do proletariado."
(Marx - Critica do programa de Gotha - 1875)
É pelo contrário a tradição "lasalliana" (retomada parcialmente por Kautsky e a social-democracia) que, abusivamente assimilada à posição de Marx, insiste na necessidade eterna do Estado, na sua conquista, no reinado divino da democracia e portanto da burguesia.
"Aliás, todo o programa, (...) é de lês a lês infectado pela servil crença da seita lassaliana ao Estado ou, o que nada mais vale, pela crença do milagre democrático; ou antes, é um compromisso entre estes dois tipos de fé ou milagre, igualmente afastados do socialismo."
(Marx - Crítica do programa de Gotha - 1875)
Assim, a polémica que separa os "marxistas" dos "anarquistas" no seio da AIT não é de saber se é ou não preciso destruir o Estado burguês (nesta época, estes duas corrente estão de acordo sobre as tarefas destruidoras da revolução), mas de saber se, uma vez o estão burguês destruído, existiria logo e automaticamente, a sociedade sem classes e sem Estado. O que diferencia portanto essencialmente a corrente bakuninista (9) das posições de Marx não é a luta à morta contra o Estado nem mesmo as questões de organização (os reformistas censuraram sempre Lenine por retomar a concepção de partido de Bakunine: a ditadura do partido da anarquia) mas sim a compreensão essencial do período de transição, do período onde o proletariado organizado em classe dominante quer dizer em Estado impõe pela força das armas a destruição do valor, a destruição das classes, negando-se portanto como Estado. Por isso, do Estado operário, Marx dizia que se tratava dum semi-estado, dum estado em via de extinção.
"Convinha abandonar toda esta tagarelice sobre o Estado, sobretudo depois da comuna que já não era um Estado no sentido próprio. Os anarquistas atiraram-nos suficientemente à cara o Estado popular, se bem que já o livro de Marx contra Proudhon e depois o Manifesto comunista dizem explicitamente que com a instauração do regime social socialista o Estado dissolve-se por si-próprio e desaparece. O Estado sendo só uma instituição temporária da qual temos que nos servir na luta, na revolução para reprimir pela força os adversários, é perfeitamente absurdo falar dum estado popular livre: enquanto o proletariado ainda precisa do Estado, não é para a liberdade, mas para reprimir os seus adversários. E no dia é que se torna possível falar de liberdade, o Estado deixa de existir como tal. Por isso, proporíamos pôr por toda a parte em lugar da palavra Estado, a palavra "Gemeinwesen" excelente velha palavra alemã respondendo à palavra francesa comuna."
(F. Engels - carta a Bebel - 1875)
A posição de Marx é portanto anti-estatal.
"A abolição do Estado só tem sentido para os comunistas como resultado necessário da supressão das classes cujo desaparecimento leva automaticamente ao desaparecimento da necessidade dum poder organizado duma classe para a opressão duma outra."
(Marx - "A nova gazeta renana" - 1850)
A afirmação da ditadura do proletariado como "transição" para a abolição de todas as classes (cf carta a J. Weydemeyer, 1852) implica a compreensão do necessário terrorismo revolucionário.
"As matanças sem resultados desde os dias de Junho e de Outubro, a fastidiosa festa expiatória desde Fevereiro e Marco, o canibalismo da própria contra-revolução, convencerão os povos que para abreviar, para simplificar, para concentrar a agonia mortífera da velha sociedade e os sofrimentos sangrentos do nascimento da nova sociedade, só existe um meio: o terrorismo revolucionário."
(Marx - "A nova gazeta renana" - 1848)
E nesta mesma perspectiva que Marx crítica duramente a Comuna por não ter tomado a iniciativa na luta, da aplicação de mediadas terroristas tendo como finalidade salvar vidas operárias mesmo que tivesse sido preciso liquidar alguns generais e padres.
"No entanto, durante alguns tempos, as execuções de prisioneiros foram suspensas. Mas logo que Thiers e os seus generais Dezembristas foram avisados, mesmo os seus espiões da policia feitos prisioneiros em Paris com o disfarce de guardas nacionais, e da mesma maneira os sergentos possuidores de bombas íncendiarias, eram poupados; logo que se aperceberam que o decreto da comuna sobre as represálias não era passava de uma vã ameaça, as execuções em massa de prisioneiros recomeçaram e continuaram sem interrupção até ao fim."
(Marx - La guerre civile en France - 1871)
E, se neste aspecto, as posições de Marx são relativamente conhecidas, a sua ligação com a destruição de toda a alienação/extraenização (ver 4) é quase sempre ocultada. De facto, a burguesia (expecto os seus cordeiros pacifistas) reconhece com pavor que as posições de Marx implicam a revolução violenta (chamavam a Marx o "red terror doctor"), implicam uma ditadura operária terrorista e portanto antidemocrática compreendida como sendo a força que destrui a escravatura assalariada e portanto o trabalho. Até as correntes burguesas que se reivindicam de Marx - estalinistas trotskistas - conservam este aspecto violento e ditatorial. O que os diferencia fundamentalmente das posições de Marx não é a não-violência ou o anti-terrorismo, mas o facto que esta violência, este terror visa o proletariado revolucionário e não a burguesia contra-revolucionária. Frente a estes pseudo-marxistas, nós não discutimos o uso apropriado ou não apropriado da violência; porque estes pseudo-marxistas defendem a escravatura assalariada, são as nossas armas que voltamos contra eles. O problema não é de saber se ou não necessário ser terrorista, mas contra quem orientar a nossa violência de classe para impor a nossa ditadura de classe. O que separa a natureza de classe da violência, é a finalidade pela qual é aplicado este terror, são os interesses históricos de classe que ele defende. Qualquer outro debate cai imediatamente na metafísica, na filosofia,... colocando as questões de "violência", "terror", "Estado", fora da luta de classe maneira de fazer que Engels desde há muito tempo destruiu no Anti-Dürhing.

O que nos interessa portanto é repor no centro de toda a compreensão marxista a questão essencial da luta operária para a abolição do trabalho assalariado por conseguinte de todo o trabalho. É para impor a sua "palavra de ordem revolucionária: abolição do salário" (Marx - Salaire, prix et profit) que o proletariado luta e vencerá. Foi Marx, mais que qualquer outro, que salientou esta questão essencial da abolição do trabalho assalariado, que defendeu a primeira palavra de ordem: "abaixo o trabalho, viva o comunismo".

"Não se deve simplesmente atacar a propriedade privada como "facto", mas atacá-la como actividade, como trabalho, se quisermos dar-lhe um golpe mortal. É um dos enganos mais graves de falar de trabalho livre, humano, social, de trabalho sem propriedade privada. O trabalho é na sua essência actividade não livre, desumana, insocial, condicionada pela propriedade privada e por sua vez criando-a. A abolição da propriedade privada só se tornara realidade quando concebida como abolição do trabalho."
(Marx - Crítica da economia nacional - 1845)
A luta proletária contra o capital só se pode conceber como luta contra o trabalho assalariado (forma que toma o trabalho, quer dizer a actividade alienada, desumana, no sistema capitalista) implicando portanto a abolição de todo o trabalho.
"No seu trabalho, o operário não se afirma, mas nega-se; não se sente à vontade, mas infeliz; não desenvolve uma livre actividade física e intelectual, mas mortifica o seu corpo e arruina o seu espírito."
"Não se trata de libertar o trabalho mas de suprimí-lo."
(Marx - A ideologia alemã - 1845)
Muitas outras questões poderiam ser objecto duma reafirmação das posições fundamentais de Marx, cortando radicalmente com aquilo que se diz (o que é dito pelo inimigo de classe e que a certas alturas Marx disse também) das suas posições, daquilo que se retém da palavra "marxismo". Nós já sublinhamos varias vezes que o conjunto do vocabulário que exprime o projecto comunista e o programa revolucionário foi integralmente modificado, foi oposto ao seu significado real, significado que ele possuía claramente às origens próprias do movimento operário. Se, na época de Marx, a qualidade de comunista sobressaía sobre o que existia, significava automaticamente: inimigo irredutível do Estado burguês; hoje, para a maior parte dos proletários, a palavra comunista recobra a triste realidade da escravatura assalariada nos países de Leste, na China ou em Cuba, ou ainda, as sinistras mímicas do palhaço Cunhal.

Frente a estas deformações, não se trata de capitular, de deixar estas expressões carregadas de história ao inimigo, reinventando todos os conceitos, reinventando até uma nova linguagem proletária (que a burguesia logo recuperaria). Ao contrário, trata-se de voltar a dar a essas palavras o seu sentido primeiro, de reactivar na memória colectiva da nossa classe as experiência fundamentais que dão a essas expressões a sua vida real, trata-se de refazer tremer a burguesia à única evocação do "espectro comunista". O mesmo se passa com o termo "marxista" generalizado com a morte de Marx por Engels que caucionava assim o começo nocivo do culto da "personalidade genial" em detrimento da apropriação do programa. Na medida em que o termo "marxista" tem o mesmo significado que o termo "comunista", nós nos reivindicamos plenamente desse marxismo, desse comunismo revolucionário sabendo porém que devemos, cada vez mais, insistir sobre o carácter impessoal, anónimo do nosso programa.

"A revolução levantasse-a terrível, mais anónima."
(Fantômes à la Caryle - Il programma comunista - 1953)
E nesse sentido que a sentença de Marx encontra a sua plena compreensão marxista: "tudo o que sei, é que eu não sou 'marxista'" (K. Marx). Só no seio do movimento comunista é que nós podemos compreender porque Marx, e unicamente ele, não era marxista. Não se trata de "ultrapassar", de "rejeitar" o marxismo. Trata-se sim de reafirmar a invariabilidade da subversão, a invariabilidade do comunismo e portanto do marxismo como negação violenta da ordem estabelecida.
"Em todo, estes escritos, nunca me qualifico de social-democrata, mas de comunista. Para Marx, como para mim, é absolutamente impossível empregar uma expressão tão elástica para designar a nossa concepção própria."
(F. Engels - Préface à la brochure du Volksstaat de 1871-75)
"Vocês lisonjeiam da maneira mais grosseira o sentimento nacional e os preconceitos corporativos dos artesãos alemães, o que é evidentemente mais popular. Da mesma maneira que os democratas fizeram da palavra povo uma formula sagrada, vocês fazem uma formula sagrada da palavra proletariado. Tal como os democratas, vocês substituem ao desenvolvimento revolucionário, a fraseologia revolucionária."
(Marx - Procès verbal du conseil central de Londres - 1850)

Notas

1. Neste sentido, todas as variedades de esquerdista que pretendem realizar "as tarefas democráticas burguesas", "a socialização da economia", "as nacionalizações", etc... estão em atraso sobre o próprio movimento do capital. E o capital pelo seu movimento que realizou os programas reformistas os mais radicais, desde os dos trotskistas até os sonhos gestionistas os mais ousados (Castoriadis, Gramsci,... até Ratgeb/Vaneigem). O esquerdista não é portanto somente reaccionário em relação ao comunismo mas ele é mais, ele é retrogrado em relação ao movimento do valor, ao movimento do capital.

2. Sobre a questão do partido, nós aconselhamos a leitura do texto "Communisme et parti" publicado na revista Le communiste No.15.

3. Evidentemente, são textos tão fundamentais como "A questão judaíca", "Os manuscritos parisienses", "A ideologia alemã", "As teses sobre Feuerbach", "Os Grundrisse", "O capitulo 5",... que tiveram que esperar décadas para serem enfim publicados, e mesmo assim, por vezes parcialmente e censurados. Inclusivamente, foi necessário esperar o trabalho essencial da republicaçao integral das obras de Marx por Riazanov para ver aparecer estes textos essenciais (trabalho que causou o seu desaparecimento nos anos 30, liquidada por Estaline). A título de exemplo, "os Grundrisse" tiveram que esperar 1939 para ser publicado em alemão, revelando de maneira irrefutável a totalidade indissociável que constitue a obra de Marx enquanto todos os "marxólogos" de ontem e de hoje teimam em censurá-lo, em cortá-lo, em opor uma parte dele contra outra (ver desenvolvimento na continuação do texto).

4. Sobre esta questão, ver o texto que recoloca a problemática marxista da alienação no centro do programa revolucionário: "Da alienação do homem à comunidade humana" Le Communiste No.14 [Comunismo No.3].

5. Sobre esta questão essencial do método, nós aconselhamos o leitor a ler o nosso texto "Notas críticas sobre o materialismo dialéctico" publicado na revista Le Communiste No.13.

6. As numerosas obras publicadas ou republicadas que pretendem apresentar a vida e a obra de Marx são na maior parte vulgarizações, formações, falsificações ou até mesmo plágios ao serviço de uma ou outra corrente burguesa. Nós retemos no entanto as obras seguintes que se destacam da massa dessas produções ideológicas:

7. "Da mesma maneira, Marx e Engels sintetizaram magistralmente o programa comunista no celebre Manifesto de 1847 que, mesmo sendo ele encomendado por um 'partido' formal - a liga dos comunistas - tem uma validade, um conteúdo que ultrapassa largamente o quadro restrito do pequeno grupo de militantes comunistas, que ninguém hoje ousaria reduzir o alcance universal do Manifesto ao simples programa da liga. O Manifesto é directamente obra de partido 'na sua larga aceitação histórica'." ("Comunismo e partido" Le Communiste No.15)

8. Evidentemente, os dois termos desta contradição classe/não-classe não devem ser concebidos como abstracções puras excluindo-se automaticamente mas como um movimento, tendência de confronto até à vitória - resolução da contradição pela afirmação do polo revolucionário - quer dizer afirmação da classe revolucionaria como classe dominante e negação do proletariado (negação da negação).

9. Bakunine e os seus amigos no seio da AIT (James Guilleume...) não tem evidentemente nada a ver com aqui lo que nós conhecemos hoje na Europa ocidental como "anarquista". Da FAF (Francesa) à CNT governamental, do "anarquista" apoiando o sindicato papal "Solidarnosk"... aos pacifistas enologistas, toda esta merda libertária é tão afastada de Bakunine que os "estalinistas" de Marx. Se Bakounine desenvolvia posições erradas entre outras sobre a ditadura do proletariado, era incontestavelmente do ponto de vista proletário do ponto de vista revolucionário, enquanto hoje, os seus "netos" se atrapalham abertamente na contra-revolução.


OL.PO.2.4 Marx contra tudo e contra todos