"A posição de classe do proletariado revolucionário comunista pode exprimir-se com a ajuda da fórmula que a legalidade burguesa execra e que os filósofos doravante renegam: o ódio de classe. Não há lutas armadas sem que o combatente odeie os adversários e, sem está luta, o sistema capitalista não cairá. Nós odiamos a classe dominante também e sobretudo quando nós sabemos vê-la não como um grupo de pândegos (o que e verdadeiramente um socialismo grosseiro), mas sim como uma potência mundial que impede a vitória e a felicidade para todos na sociedade comunista futura. Aquele que compreendeu na sua potência, está passagem histórica dialéctica não ficará nem um só momento embaraçado (seria verdadeiramente um ingénuo) frente à objecção frequentemente utilizada que consiste em se admirar de ver o ódio engendrar o amor, a guerra de classe armada engendrar a paz e a serenidade futuras."
Bordiga - 1959 - "Comentários dos manuscritos de 1844"

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A propósito da situação em Portugal a partir do 25 de abril
Apesar de ficar susceptível de ressaltos, o caso português só apresenta um enigma insolúvel àqueles (os mais numerosos) que ignoram o que é a revolução. Mesmo revolucionários sinceros mas confusos ficam perplexos frente ao desabar dum movimento que lhes parecia tão amplo alguns meses antes. Essa incompreensão baseia-se numa confusão. Portugal ilustra o que o proletariado é capaz de fazer, demonstrando uma vez mais que o capital tem que o tomar em consideração. A acção do proletariado não é o motor da história, mas constitui no plano político e social a pedra chave da evolução de todos os países capitalistas modernos. No entanto, essa irrupção na cena histórica não coincide automaticamente com uma progressão revolucionária. Misturar teoricamente os dois, é confundir a revolução com seu contrário. Falar em revolução portuguesa, é disfarçar em revolução uma reorganização do capital. Enquanto o proletariado fica nos limites económicos e políticos capitalistas, não só os seus movimentos elementares não fazem mudar de base a sociedade, mas mesmo as reformas adquiridas (liberdades políticas e reivindicações económicas) são destinadas a uma existência efémera. O que o capital concede a um operário, ele pode retomá-lo em totalidade ou em parte logo depois da recaída: todo o movimento se condena se ele se limita a uma pressão sobre o capitalismo. Enquanto o proletariado age assim, só está a bater o punho na mesa.
A ditadura portuguesa tinha cessado de ser a forma adequada ao desenvolvimento de um capital nacional, assim como o provava a sua incapacidade em resolver a questão colonial. Longe de enriquecer a metrópole, as suas colónias desequilibravam-na. Felizmente, para abater o "fascismo", havia... o exército! Única força organizada do pais, era a única a poder lançar está mudança: quanto a efectua-la com sucesso, foi outro assunto. Como de costume, cegos pelas suas funções e suas pretensões ao poder no quadro do capital, a esquerda e a extrema-esquerda diagnosticaram uma profunda mudança do exército. Depois de ter visto nos oficiais, só torcionários colonialistas, os esquerdistas descobriram de repente um exército popular. Com a ajuda da sociologia, se demonstraram as origens e as aspirações "populares", portanto provavelmente socializantes, dos militares. Era suficiente cultivar as boas intenções deles que só queriam, pensava-se, ser esclarecidas pelos "marxistas". Do PS aos esquerdistas mais extremos, todo o mundo se entendem para ocultar o simples facto, que o Estado capitalista não tinha desaparecido, e que o exército ficava como seu instrumento essencial.

Porque o mecanismo do Estado se abria aos militantes operários, acreditou-se que o Estado mudava de função. Porque ele tinha uma linguagem popular, considerou-se que o exército estava do lado dos operários. Porque reinava uma relativa liberdade de expressão, julgou-se que a "democracia operária" (fundamento do "socialismo" como cada um sabe) esteve em boa via. Houve com certeza uma serie de advertências, onde o Estado se mostrou tal como tinha ficado. Mais uma vez, esquerda e esquerdismo tiravam a conclusão que era preciso exercer uma pressão ainda mais forte no Estado, mas sobretudo não atacá-lo, para não fazer o jogo da "direita" . Realizavam no entanto exactamente o programa da direita, juntando o que a direita geralmente incapaz de fazer: a adesão das massas. A abertura do Estado a influência "de esquerda" não significava o seu enfraquecimento, mas o seu reforço. Ele introduzia uma ideologia popular e um entusiasmo operário ao serviço da construção de um capitalismo nacional português .

A aliança esquerda - exército era precária. A esquerda trazia as massas, o exército a estabilidade pela ameaça omnipresente das armas . Teria sido necessário que os PC e PS controlassem bem as massas. Por isso, eles deviam conceder vantagens materiais perigosas para a viabilidade de um capitalismo fraco. Daí a contradição, e as recomposições políticas sucessivas. As organizações " operárias " são capazes de dominar os trabalhadores, não de devolver ao capital a rentabilidade que lhe falta. Era preciso então resolver a contradição e restabelecer a disciplina. A pretendida revolução terá servido a cansar os mais resolutos, a desencorajar os outros, e a isolar, até a reprimir, os revolucionários. Intervindo depois brutalmente, o Estado mostrou bem que nunca tinha desaparecido. Aqueles que quiseram ou disseram conquistá-lo do interior só o sustentaram num momento crítico. Um movimento revolucionário não é impossível em Portugal, mas depende de um contexto mais largo, e de qualquer maneira só será possível com outras bases que o movimento capitalista - democrático de Abril 1974 .

A luta operária, mesmo "reivindicativa", contribua a colocar o capital em dificuldade, e constitua alem disso a experiência necessária onde o proletariado se forma para a revolução. Ela prepara o futuro: mas está preparação pode jogar nos dois sentidos, não é automática, pode tão bem abafar como reforçar o movimento comunista. Nessas condições, insistir na "autonomia" das acções operária não chega (...) . É somente cumprindo certas medidas que os proletários podem guardar o controle da luta. Se eles se limitam a uma acção reformista, ela deve a prazo escapar-lhes e ser recupera por um organismo especializado, tipo sindical, seja chamado sindicato, ou " comissão de base". A autonomia não é uma virtude revolucionária em si. Não prova nada por si - mesma. Toda forma de organização depende do conteúdo para o qual se organiza . O acento não se deve insistir - actividade dos operários, mas na perspectiva comunista cuja realização permite efectivamente a acção operária de não cair na direcção dos partidos e sindicatos tradicionais. O conteúdo da acção é o critério determinante: a revolução não é assunto de "maioria". Privilegiar a autonomia operária conduz a um beco sem saída.

O "operariarismo" é ás vezes uma reacção saudável, mas verifica-se catastrófico quando se congela nesse estado e se teoriza. Desde então escamoteia -se as tarefes decisivas para a revolução . Em nome da "democracia operária", encera-se os proletários na empresa e nos problemas da produção (sem ver a revolução como destruição da empresa como tal). obscurece-se a questão do Estado. No melhor caso, reinventa-se o "sindicalismo revolucionário".


OL.PO.1.1 Apresentação:

A propósito da situação em Portugal a partir do 25 de abril